dezembro 10, 2013 § Deixe um comentário

Entro no banheiro. O azulejo frio sob meus pés me tranquiliza, existem mesmo coisas imutáveis neste mundo, que são incapazes de chorar e que podemos colar com cimento. O azulejo possui uma utilidade definida, ele serve para se colocar no piso, nos muros, chegando até aos tetos. Mesmo colado sozinho ou junto a milhares de congêneres, ele será sempre frio. As únicas coisas que podem mudar isso são os meus pés e a temperatura do aquecedor.

Não se costuma falar do destino dos ladrilhos partidos ou quebrados, eles são rejeitados, massacrados pela eugenia industrial; para eles, ao menos, não damos esperanças de que terão, apesar de tudo, um lugar para ir, um banheiro de reabilitação.

Eu adoraria ter esse tipo de psicologia fisiológica; feliz quando está calor, triste quando está frio. Certamente eu gastaria muito dinheiro para me manter aquecido, mas seria uma vida mais feliz se meu humor não dependesse mais de fatores tão volúveis quanto o amor, a atenção, o destino da humanidade.

(tradução inédita do livro Une Parfaite Journée Parfaite, Martin Page. Points, p.12)

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Mercivoir

novembro 25, 2013 § Deixe um comentário

Todos nós sabemos que viajar é a melhor maneira de aprender uma língua estrangeira, mais ainda se não tivermos interlocutores em nossa língua nativa, ou em uma língua intermediaria (como o inglês). Neste cenário, somos “forçados” a utilizar todas as ferramentas obtidas nos cursos comunicativos e nos manuais de língua, sem que haja outro recurso além da mímica – o que nem sempre funciona.

Tudo isto é bem conhecido, porém há ainda um outro aspecto que pode chegar como uma surpresa para o viajante inexperiente; Em outro país, aprendemos também outros costumes. São coisas que vão além dos clichés e não aparecem em livros, pois mudam constantemente. Pode ser uma maneira irreverente de pedir uma cerveja, um elogio a uma pessoa bonita na rua, ou uma expressão oriunda do mais novo sucesso nas rádios. Às vezes aprendemos coisas que sequer possuem equivalentes em nossa língua mãe.

Além das novas palavras, os costumes são capazes de nos ensinar usos novos para palavras conhecidas. O viajante Brasileiro, chegando em paris, vai aprender rapidinho uma nova forma de usar três velhas amigas; Bonjour / Merci / Au Revoir.

Em minha primeira viagem à cidade luz, não importa em qual estabelecimento eu entrava, grande ou pequeno, lá do fundo vinha uma voz “bonjour”.  Às vezes “bonjour?”. Como se houvesse um alarme raio laser na porta; “bonjour”.

Pensei comigo mesmo, quantas vezes entramos em um lugar privado sem anunciar nossa entrada? É realmente educado entrar em uma loja sem cumprimentar o balconista, ou o vendedor? Em Paris, dizer “bonjour” soa tão natural que nos sentimos “invadindo” um local ao entrar desta forma. Rapidinho nós estamos usando Bonjour como se deve. O mesmo acontece na saída.

Aí de quem se retira sem Merci ou Au Revoir, ou sua metamorfose Mercivoir. Mesmo que não se compre nada, ao se dirigir para a porta de saída somos puxados como um imã.  Os garçons, balconistas, seguranças olham com estranhamento e perguntam “au revoir?”.  Logo um francês passa ao seu lado e declama “mercivoir”. Aprende-se rápido em terreno estrangeiro.

Logo logo em todo lugar em que entrava, eu dizia bonjour na chegada e “merci, au revoir” na saída. Sempre respondido por um simpático “mercivoir”, para abreviar. Paris se tornava cada vez mais Rose.

Muitas vezes os franceses são acusados de serem grossos e mal-educados. Mas se olharmos no espelho, será que estamos fazendo nossa parte? Mesmo para o viajante que não fala francês, as três palavras mágicas devem estar sempre no bolso. Sendo simpático na entrada, eles poderão até perguntar “speak english?” se sentirem que seu francês ainda está no nível básico, alguns vão até se arriscar no português.  Entrar e sair dos cafés parisienses desta forma, se torna um prazer ainda maior, e digo com peito cheio ao ir embora minha nova palavra favorita em francês;  “mercivoir”

Reprodução – resenha

outubro 24, 2013 § Deixe um comentário

Eu não li o Filho da Mãe, livro do Bernardo Carvalho muito elogiado e também parte da coleção Amores Expressos. Nem quando eu o vi traduzido para o francês – o que é um grande mérito, atravessar o oceano um autor brasileiro. Sempre esteve na lista de próximo, mas passando na frente da loja da Companhia das Letras vi a capa do novo trabalho do autor “Reprodução” a capa com a faixa verde-acqua e uma grande muvuca parecendo um parlamento ou uma bolsa de valores. Chamou minha atenção e decidi não perder tempo, queimando a fila, peguei o livro para devorar em apenas 2 dias.

reprodução bernardo

Devo dizer que foi difícil terminar o livro, quase desisti. A narrativa se mostrou muito diferente do que estava descrito na contracapa. Tipo aqueles casos onde o trailler é melhor que o filme, nest caso a orelha é melhor do que o romance . Não que o livro seja ruim! Mas no resumo do livro algums pontos são levantados com ênfase quando não passam de meros detalhes na narrativa. Defender o “típico personagem da nossa era” é um exagero sem tamanho, até por que não acho que ninguém irá se identificar com o personagem, ainda mais por que “o comentarista de blogs e portais da internet” fala muito pouco sobre ele. Melhor definido mesmo como “vive entre a realidade e a paranóia”.

A narrativa, em discurso direto, me lembrou Meursault, herói do livro de Camus, L’etranger. Livro que exige fôlego para ler, tamanho absurdo o desencadear de idéias do personagem. No livro de Bernardo o fôlego precisa ser ainda maior, pois o primeiro capitulo se arrasta por 50 paginas de um monólogo paranóico. No segundo capítulo, outra longa dose no mesmo estilo… só que sem saber direito pra que serve na trama, a vontade é de pular as paginas.

Entertanto, mesmo com um caminho tão difícil, ao final da leitura a sensação é de termos feito uma viagem profunda. O “estudante de chinês” conseguiu deixar sua marca, o texto consegue se sustentar como um retrato louco destes tempos loucos. Posso então recomendar a leitura deste livro, e que seja feita de maneira rápida, uma sentada pra cada capítulo, pulando algumas páginas se lhe convir. Pois é um livro capaz de nos fazer sentir mudados.

Digam a Satã que o recado Não foi entendido

setembro 12, 2013 § 2 Comentários

A série Amores Expressos continua viva; mesmo que seja apenas um selinho discreto na contra capa do livro. É de Daniel Pellizzari a empreitada de narrar uma história de amor em Dublin, capital da Irlanda. O título provocador Digam A Satã Que O Recado Foi Entendido e a ótima capa me fizeram pular rapidamente dentro do livro quando o vi na prateleira da livraria.

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Mas foi na página 102 que eu enchi o saco de vez e abandonei a leitura; apenas folheando as páginas finais. O texto de Pellizzari possui características que, dependendo do ponto de vista, podem ser qualidades ou defeitos; texto anárquico, temas obscuros, múltiplos narradores e múltiplas referências. Só que faltou uma escrita melhor . Muitas vezes eu recorri à contracapa com o resuminho da história pra tentar descobrir qual era o personagem que estava sendo narrado. É como se alguém entrasse na sala contanto uma história pela metade, e você não sabe de quem se trata – em um filme temos pelo menos o rosto dos atores para estabelecer uma relação, no texto escrito é preciso situar o leitor nem que seja pelo título do capítulo – o que não ocorre. A narrativa é irregular mesmo em recortes menores, como no capítulo “Jesuis” onde um dos personagens começa falando tudo errado e passando as páginas vai falando mais normal, sua marca registrada é falar “idjota”. O que é o cerne de outro problema. Qual é a língua que estes personagens falam? O autor parece simular uma tradução para o português do inglês da irlanda de sotaque mais puxado e o resultado é muito estranho – pois é difícil desligar a informação de que se trata de escritor brasileiro e fica todo mundo parecendo caipira.

Não gosto também desse negócio de “referencias pop”. Tem um personagem viciado em videogames da Nintendo, outro em “shmups”; soa um tanto forçado, senão irrelevante, já que não desenvolve o personagem nem a historia.

 

A Dublin de Pellizzari é caótica, tem cheiro de alcool, pubs e sexo…. não existe amor em Dublin. Inserido na coleção Amores Expressos é uma grande Fuga do Tema. Sorte que não é redação do ENEM.

 

 

Martin Page – Apicultura Segundo Samuel Beckett

junho 6, 2013 § 2 Comentários

Mais novo livro de Martin Page, com um titulo engraçarilho; A Apicultura Segundo Samuel Becket. Destinado a permanecer inédito em português – desde que a Rocco esqueceu do autor – é um volume pequeno com um argumento provocativo de que muito o que sabemos, ou procuramos saber sobre a vida de um autor pouco importa no fim das contas.

 

Do site do autor:

Verão em Paris, um estudante de pós-graduação em antropologia é contratado por Samuel Beckett para classificar seus arquivos. Este encontro lhe parece ão improvável que ele decide escrever um diário para não esquecer de nada, uma vez que o Beckett extravagante que ele descreve está longe de ser o homem austero que imaginava. Esta história é uma reflexão sobre a imagem do escritor, sua memória, o uso de sua obra.

O fator cômico é posto em mesa já na introdução, onde um suposto Professor inglês relata como os arquivos pessoais de Beckett sobreviveram magicamente a um incendio, inundação e reforma na universidade de Londres. Na trama, Beckett fabrica documentos e compra objetos em butiques para enviar às universidades, forjando uma memória e provavel interpretação de seus textos através destes objetos.

É uma ideia divertida, mas o livro não é o momento mais inspirado de Martin Page. Ainda mais depois de ter lançado La Disparition de Paris – o outrora autor revelação francês tem grandes sapatos para preencher. Parece mais um exercício de escrita do que o Novo romance do autor. Seu tamanho curtinho reforça esta impressão; vamos esperar o próximo!

 

Ouvir Vincent Liben….

junho 6, 2013 § Deixe um comentário

Ouvir Vincent Liben e ler Michel Houellebecq; o mundo ocidental não fica mais melancólico que isto

A capa de seu primeiro disco é hipnotizante;

Descobri Vincente há muito pouco, através de sua parceria com Berry.

Está prestes a lançar um novo disco,

tem tantos plays no soundcloud quanto minha antiga bandinha de Aracaju

dê mais um

 

 

 

OLD BOY e um comentário rasteiro sobre mangás

abril 29, 2013 § Deixe um comentário

 É interessante observar como o mercado de mangás continua em alta no Brasil. Basta ir habitualmente à uma banca de revistas e observar a quantidade de novos títulos que são publicados e relançados. O que mais admira, é que não só de Dragon Ball e Naruto vivem os mangás. Várias histórias com nomes estranhos e garotas peitudas são lançadas todo ano sem que haja divulgação formal em outras mídias. Será um mercado que se alimenta dos downloads via internet e fan-subs? Eu não tenho ideia de como anda a programação de Animes na TV a cabo, mas 95% do que é publicado hoje eu nunca ouvi falar.

Daí que pra minha surpresa chegou na minha banquinha OLD BOY, conhecido há muitos anos por aqui devido ao filme de mesmo nome, mas que muita gente não deve imaginar ter origem nos quadrinhos – principalmente por não conter os clichés do gênero. Achei incrível que mesmo tantos anos depois ainda tenha havido interesse em publicar esta história. E olha que na publicação não há qualquer referencia ao filme!

Curioso, li o mangá para procurar as semelhanças e diferenças em relação ao filme. Para minha surpresa, foram muito poucas. Além do normal aumento de conteúdo que permite a mídia impressa, a referência à Monte Cristo parece ter sido uma inserção do diretor Chan-wook Park ao filme. Pretendo continuar a leitura do mangá que está no numero 2, e atualizarei o post caso tenha algo interessante à adicionar.