Resenha Submissão Michel Houellebecq

fevereiro 25, 2015 § 2 Comentários

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Achei  Soumission o livro mais fraco de Michel Houellebecq, se não fosse o numero de vendas garantidas pro causa do nome do autor na capa, talvez nem recebesse uma tradução em português; mas por quê?

Antes de tudo, Submissão é bastante diferente das expectativas geradas pelas noticias/polemicas divulgadas na mídia francesa e americana. É gritante que tenham divulgado (inclusive na capa do Charlie Hebdo de 7 de janeiro) que o personagem do livro se converte ao islã, esqueceram de usar a tarja ==SPOILER ALERT== pois o ramadã só ocorre nas páginas finais do livro.

Imagino que o leitor brasileiro terá dificuldade imensa na leitura, tamanho o nível de referências políticas e sociais francesas presente no texto. Em alguns momentos é como ler um editorial do LeMonde – tudo parece muito local no texto e pouco universal, característica muito melhor equilibrada nas obras anteriores de Houellebecq. Me pergunto se encherão o texto com notas de rodapé, espero que não, mas o leitor fora da França se sentirá alienado.

Em alguns momentos o autor alcança o sublime, uma prosa que esperamos de um escritor do primeiro escalão, há por todo o livro uma ideia de fechamento de ciclos em nossas vidas. Seja a vida amorosa, profissional ou intelectual. O “depressionismo francês”, marca do autor, está presente e potencializado pela presença constante de Joris-karl Huysmans, símbolo da Decadense do fin-de-siécle. Soumisson é talvez a mais bela homenagem feita a Huysmans desde Oscar Wilde.

Não há uma critica ao Islã, há muito mais elogios, porém Houellebecq não nega o seu ponto de vista. Sem demagogia, o ponto de vista é de um homem heterossexual europeu bem formado, que possui ideias pré-concebidas como qualquer um de nós, não há tentativa de usar a voz de outra classe social, ou raça.

O principal problema de Soumission é seu protagonista. Ele é apenas um observador em um país que ultrapassa grandes mudanças. Não toma ação em nenhum nível coletivo. Além disso, o protagonista é menos informado do que a média, ou menos informado do que poderíamos esperar de alguém com seu perfil. Por este motivo o livro se torna didático, mastigadinho, explicadinho, enquanto François, sempre muito interessado, pergunta aos seus amigos e colegas de trabalho qual a situação política do país e da religião muçulmana.

Este excesso de didática torna o texto muito simples, muito distante do autor de Partículas Elementares onde os micro-ensaios traziam dezenas de ideias em apenas uma página e o ácido escorria a cada parágrafo.

Como em Admirável Mundo Novo, que também discutia um futuro distopico próximo, Soumission é um livro melhor na discussão que levanta do que em sua prosa  e estilo. Houellebecq previu uma França muito diferente em 2022, declarando em uma entrevista que achava que era uma data próxima demais para um partido muçulmano vencer as eleições na franca, mas justificou que este era seu lado “bestseller”, a escolha da data também torna possível a presença de toda a cena política francesa dos dias de hoje, lá temos Sarkozy, Hollande, Le Pen… senti falta de conhecer melhor Mohammed Ben Abbes. Mais páginas além das  exatas 300 (flammarion) seriam bem vindas, mas as únicas palavras que aparecem na página 300 fechando o livro são

 

Je n’aurais rien à regretter

 

ps* Se você nunca leu Michel Houellebecq e se interessa pelo autor, recomendo seguir a ordem cronológica de seus romances começando por Extensão do Domínio da Luta. Submissão será publicado no Brasil pela edições Alfaguara.

Entrevista citada:

http://www.theparisreview.org/blog/2015/01/02/scare-tactics-michel-houellebecq-on-his-new-book/

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§ 2 Respostas para Resenha Submissão Michel Houellebecq

  • alinetkm disse:

    Estava achando a ideia de Submissão bastante genial logo que ouvi falar do livro – claro, influenciada pela minha vontade anterior de ler algo do autor. Sua resenha foi bem clara, e posso dizer que tenho as expectativas mais alinhadas – já não estou esperando algo tão grandioso assim, e estou até com certo receio por conta das referências à política francesa. Até pensei em ler no original em francês, mas como ando com algumas leituras atrasadas, deixei quieto.
    Ah, valeu pela dica no fim; nunca li nada do autor e é bom saber que é melhor seguir a ordem dos livros (ainda que eu esteja mais curiosa para começar por Partículas Elementares).

    Beijos, Livro Lab

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