Um escritor brasileiro…

dezembro 25, 2012 § 1 comentário

A história de um homem incapaz de lembrar dos rostos das pessoas, mesmo a mulher com quem dormiu na noite anterior; que se muda para uma cidade pequena para tentar descobrir a verdade sobre o assassinato de seu avô brutalmente assassinado, um mistério na cidade que todos fingem não conhecer. Uma narrativa que a cada nova revelação ficamos mais ansiosos para chegarmos ao surpreendente final. É com um frio na espinha e sensação de enjoo que eu sorrio ao ouvir “mas eu não gosto de historias que passam no brasil”. Mais tarde no mesmo dia ainda ouvi “Ele prefere livros estrangeiros”. Isso depois de pupilas dilatarem com interesse enquanto eu explicava que se tratava de um dos melhores livros do ano.

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É possível vender Barba Ensopada de Sangue como um livro de mistério – o título forte ajuda – atingir os leitores casuais. Mas o livro possui outras camadas; é o quarto lançado pelo autor gaúcho pela companhia das letras, que teve um bom insight ao relançar o inspirado Até O Dia Em Que o Cão Morreu e mandar o autor para Argentina para escrever o excelente Cordilheira, livro que me impressionou muito pela trama bem amarrada e do qual já falei aqui antes. Com o novo lançamento, a maquina do hype pareceu trabalhar a todo vapor para levantar a moral de Galera. De repente todo mundo sabia quem era o cara, pessoas procuravam não apenas o Barba, mas livros anteriores. Ficou fácil recomendar Cordilheira, tarefa árdua antes do autor aparecer nas revistas, blogs, etc, agora as pessoas diziam “já ouvi falar!”. A tiragem foi enorme e as pilhas nas livrarias subiam na cor vermelha, azul e verde. Mesmo quem conhecia de nome, se animou a pegar algum livro. E todo esse burburinho ainda na semana do lançamento. Sem ninguém de fato ter lido o livro. Senti então urgência em começar logo a leitura, pra poder saber do que eu estava falando além das reportagens e dos livros anteriores. Li 100 páginas de uma só vez. O texto prende a atenção do início tenso, onde descobrimos a história familiar do personagem chamado Ele, ao alívio narrativo da cidade de Garopaba, onde a trama se desenvolve e não demora para acontecerem encontros amorosos. É com muito sucesso que o autor toma bastante tempo para avançar a história e estaciona nos diferentes personagens – sub-tramas que divertem e tornam o tempo de leitura mais agradável do que um livro apressado, com ritmo de cinema, típico da literatura norte americana, mas a dose bem calibrada de mistério garante o virar das páginas.

Daniel Galera é um autor de inspirações literária, e talvez um dos pontos fracos do livro seja a evidência de que o autor tenta impor um Estilo à narrativa. Por exemplo; A insistência em evitar dizer o nome d’Ele esbarra muitas vezes com algumas frases que deixam de soar naturais, além da falta de aspas ou de travessões que apesar de funcionar 90% das vezes, me parece desnecessária para este tipo de história. O estilo de Galera, para mim, parece não estar inteiramente desenvolvido e se mostra inconsistente. Não é um livro de puro entretenimento, mas também não é um livro cabeçudo. A voz narrativa narra apenas a história, os personagens não fazem digressões profundas sobre temas alheios à narrativa. Não há o pensamento universal, a análise do mundo e do seu tempo, das condições sociais de certa comunidade no mundo real, a crítica. A história não é apenas uma ponte para o pensamento do autor e uma maneira de se expressar artisticamente. São estas as características de uma alta literatura que o Galera parece tentar, mas não consegue alcançar, e seus personagens digressam apenas em temas imediatos e não se afastam muito da ação. O maior trunfo do autor é a criação de personagens, são tipos marcantes e um dos melhores protagonistas/heróis em minha memória recente. A história é apenas uma boa história. Daria um ótimo filme. Eu adoraria que os leitores de Stieg Larsson conhecessem este livro e que as vendas chegassem a um numero parecido. Difícil é derrubar a barreira de preconceito que ainda existe com o escritores nacionais, o que me faz pensar que estamos formando muito mal nossos leitores, os livros regionalistas e super rebuscados que somos obrigados a ler na escola não estão deixando ver que temos escritores instigantes, que falam as nossas gírias, que podem ser lidos no avião sem causar tédio ou sonolência.

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