Texto (inédito) traduzido do livro Disparition De Paris et sa Renaissance en Afrique, èditions de l’Olivier p.38-42

abril 17, 2012 § 3 Comentários

Já faz dois anos que uso plenamente minha liberdade sexual para rejeitar os avanços de um certo número de mulheres. Meu ultimo caso de amor foi complicado, então decidi passar algum tempo na seca. Agora que a dor diminuiu, o fim deste caso não me parece mais tão escandaloso. Chego até a pensar que é bom quando estes casos terminam, pois eles nos marcam e nos deixam abertos a outros. Olho para meus livros e meus discos e percebo que o amor construiu quem eu sou. Mas para ser honesto, os livros e discos dos meus anos de solteiro não são poucos. Quando solteiros, passamos por momentos de desespero e um sentimento de inutilidade parecido com o que sentimos quando estamos desempregados. Passado algum tempo, entendi que as férias do meu coração não eram um problema em si; eu me encontrei comigo mesmo, e esta companhia não era tão desagradável. Uma coisa, no entanto, não estava resolvida: eu não sabia o que fazer dos meus desejos. O corpo tem fome do toque, do calor de um outro corpo e de um batimento de outro coração para regular o ritmo do seu. Eu não sabia como nutri-lo de maneira satisfatória. Para minha surpresa, a resposta estava desenhada em minha testa sem que eu conseguisse ver. Desde maio passado, passo as noites de quarta e quinta-feira com uma mulher que conheço pouco – Dana. Às vezes fazemos amor, muitas vezes nos contentamos de dormir juntos. Nosso relacionamento é limitado a um quarto de hotel. Imagino que julgando de fora isto pareça ridículo. Do meu ponto de vista, é algo carnal e não há nada de mal nisso. Nos conhecemos em uma destas saídas com conhecidos do trabalho onde hesitamos a ir, onde não há muito interesse, mas que acabamos indo para não ter do que se arrepender, ou pelo menos para ter assunto de conversa no escritório no dia seguinte. A festinha acontecera em um apartamento perto de uma praça no centro. Dana se mantinha em um canto do apartamento, um copo vazio na mão colocado entre ela e a massa de convidados, como se ela tivesse posto uma parede de vidro para se proteger, fingir que ela não estava realmente lá. Instintivamente me aproximei dela e falamos sobre coisas e pessoas. Eu não poderia resumir melhor: nós nos reencontramos. Isto poderia desencadear um grande romance, mas nós não estávamos com a disposição necessária para nos apaixonar. Saímos daquele apartamento, daquele ambiente de conversas, aperitivos e salgadinhos. A primavera nos envolvia com sua delicadeza, a noite estava clara. Passamos em frente de um hotel luxuoso, um prédio com recepção, manobrista, tapete vermelho e porta giratória. Me lembro de ter notado o tamanho e imponência dos prédios na vizinhança; em comparação, os prédios de minha rua pareciam crianças arquitetônicas. Pensei assim que este bairro tinha um ar adulto, capaz de se defender e viver em tranquilidade. Não seria preciso se preocupar com seu futuro. Dana e eu olhamos o hotel com atenção, impressionados, admirados, depois olhamos um para o outro. Não sei por que motivo nós entramos, por que pedimos um quarto. Talvez tivéssemos necessidade de nos encolher em um lugar luxuoso. Procurávamos um refúgio. Não havia a intenção de dormir juntos, mas nos deixamos levar pela situação (e algumas situações tem suas regras). Acho que cada um pensava que o outro estava atrás de uma aventura, e não querendo lhe desapontar, por educação, ambos consentiram. Mas, estava na cara, nem ela nem eu sabia quem iria dar o primeiro passo. Estávamos paralisados quanto ao que fazer. No quarto, comecei tentando beijá-la, mas minha boca não encontrou a dela. Ela caiu na risada. Depois ela me beijou, mas não aconteceu nada mais sério. Passamos a noite na cama, bebendo champanhe vendo os filmes que passavam na TV. Começamos a nos encontrar todas as semanas, quarta-feira às onze, no mesmo hotel. Estes encontros semanais eram suficientes. Nós deslizávamos na cama, falando de tudo um pouco, assistindo filmes com a bandeja no joelho, bebendo vinho e champanhe, fazíamos amor. Não discutíamos este relacionamento inexistente. Não foi algo decidido, mas algo que se impôs. Havia um sentimento de viver algo fora de nossa realidade. Dar um nome ao que fazíamos o tornaria algo normal, entraríamos bruscamente na realidade. E acredito que nem ela nem eu possuía muita confiança na realidade para deixar ela nos cercar. Pelo mesmo motivo não falávamos de nosso passado, não revelamos nada muito pessoal; nem endereço nem família. O mistério e o carinho dominavam nossas noites.

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§ 3 Respostas para Texto (inédito) traduzido do livro Disparition De Paris et sa Renaissance en Afrique, èditions de l’Olivier p.38-42

  • Não sei se a tradução foi feita por te ou se a buscou em algum lugar..Mas obrigada! Já li todos os livros traduzidos dele e procurando alguma coisa nova acabei caindo aqui. Não sei francês e tô pensando em aprender só pra ler mais Martin Page.

    amanda

    • Tradução minha sim =)
      Não sei porque a Rocco parou de lançar os livros do Martin Page, uma pena, este livro mesmo é espetacular! Se tiver disposição comente nas paginas da editora pedindo para que voltem a lançar seus livros! Na falta, não deixe de ler os livros de David Foenkinos que são excelentes, especialmente O Potencial… e Quem se Lembra… 😉
      Sobre aprender fancês, é uma língua deliciosa de ouvir, falar e ler… e tem os melhores escritores de literatura clássica; só não é tão útil no mercado de trabalho como o inglês ;x

      • Fui atrás do site da editora Rocco justamente para fazer esse apelo no dia em achei a tua tradução..:)
        Falar francês é um sonho, pelo menos pra mim seria mais para a leitura do que qualquer outra coisa.
        Mais uma vez obrigada pelas dicas de livros e autor, realmente estou atrás de coisas novas para ler já faz um tempo e nada que encontrei conseguiu prender minha atenção.

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