Começando pelo final; NEXUS de Henry Miller

novembro 30, 2011 § 1 comentário

Recentemente a Companhia das Letras levou novamente às livrarias o excelente NEXUS daquele que posso chamar sem medo de “meu escritor favorito” se não pela importância que prestou na minha formação como leitor, ao menos pelo numero de livros que possuo dele; quase tudo! não vou fazer listas, mas aproveito para mostrar as duas trilogias em edições que gosto muito.Apesar do design interessante da edição da Groove Press, o papel mole e plastificado falha a resistir leituras consecutivas e minha cópia de Tropic of Capricorn já está desmontando. O mesmo não se pode dizer da edição brasileira, capa dura, ilustração original, folha de guarda, folha de rosto ilustrada; impecável – e o papel que ainda tem cheiro de novo depois de 6 anos de comprado. A tradução foi feita pelo ótimo SERGIO FLAKSMAN, que tem dado conta de atualizar alguns livros com teor erótico; lady chatterley, lolita, mas também Orwell, Capote, Pamuk, Jonathan Franzen… o trabalho dele é impecável, não apenas uma tradução fiel, mas um belo texto em língua portuguesa por si.

Mas em 2012, apenas NEXUS restou desta edição da companhia das letras…SEXUS e PLEXUS esgotaram rapidamente apesar dos gritos de socorro deixados nos comentários do próprio site da editora.
O que torna, obviamente, muito mais difícil de vender o que é o terceiro livro da coleção. Retomando então o inicio do texto, a Companhia colou um adesivinho de 50% de desconto em comemoração aos 25 anos de editora. Sorte de quem aproveitou.

Uma noite destas, pouco antes do fechamento da loja, um casal frequentador da livraria estava lá fazendo sua feirinha cultural, hesitantes se valia a pena incluir NEXUS em sua compra. “sempre tive vontade de ler, mas não fica estranho começar pelo volume 3?” Respondi que não deveriam perder a oportunidade e que o livro valia muito mesmo separado da trilogia. Por exemplo; Trópico de câncer (1934), Primavera Negra (1936) e Trópico de capricórnio (1939) podem ser vistos como uma trilogia por retratar a fase parisiense de Miller, ou pela proximidade de seus lançamentos. Não se trata de uma trilogia no sentido de continuidade, mas de livros que se aproximam na temática e no estilo. Em seu primeiro livro publicado, Miller “cuspiu na cara da arte” e se distanciou da narrativa Realista em busca da aproximação entre Ser e Texto, da liberdade, da verdade; para tal também foi preciso quebrar com a linearidade, o que levou a Miller a desenvolver uma de suas mais notáveis características, a Narrativa Espiral – técnica profundamente analisada por James M. Decker em sua tese Henry Miller and Narrative Form- sem tradução em português, que me foi gentilmente cedida pelo autor e grande incentivador da leitura da obra de Miller, responsável também pela publicação da revista anual Nexus: The International Henry Miller Journal (http://nexusmiller.org/) – somente depois de dez anos do lançamento de Capricórnio Miller viria a lançar seu próximo romance, – mas não se engane ao pensar que Miller fora pouco produtivo – escreveu durante toda sua vida ensaios, livros de viagem, contos, e por que não; cartas – parte indispensável de sua bibliografia; já como escritor maduro, superadas as dificuldades pessoais e financeiras (e editoriais!), de volta aos Estados Unidos, surgia então Sexus (1949) e seriam preciso outros dez anos para concluir seu projeto chamado de A Crucificação Rosada com Plexus (1953) e Nexus (1959). Em tempo, Decker afirma que “The Rosy Crucifixion may appear chronological at first, but only a throughly uncritical reader could maintain such an interpretation for long” “A Crucificação Rosada pode parecer cronologica a principio, mas apenas um leitor sem visão crítica pode manter tal interpretação por muito tempo” Nesta nova trilogia a Narrativa Espiral é parte fundamental do texto que mistura memória, sonhos e microensaios. O que faz não só cada livro, mas cada capítulo, partes autônomas – respondendo a pergunta acima.

Falar com tanta paixão de um dos meus livros favoritos me fez tirar da prateleira a minha cópia de nexus com a inscrição Leonardo S Bandeira – natal 2006. Eu queria verificar se o explicado acima era mesmo verdade, qual era a impressão que um novo leitor teria ao começar por este volume, mas o que deveria ser uma página acabou puxando outra… Na primeira página de NEXUS –  Au! Au au! Au! Au! – Henry está acordando de um devaneio onde se encontra reduzido ao nível de um animal – Au! Au au! Au! au! Eu grito, mas o mundo só percebe um sussurro – é difícil definir o que está acontecendo, nomes brotam nas páginas, o que eles querem dizer? Na narrativa de Miller a Realidade e a Ficção se misturam com o Sonho e o Devaneio – Estão aí companheiros? nenhuma resposta – O autor frustra qualquer expectativa que possuímos de um “começo” de livro que introduz e situa o leitor; logo em seguida estamos falando sobre Dostoievski e o fluxo narrativo segue carregando o leitor; esqueci imediatamente dos livros que peguei emprestado, lia no ônibus, lia trechos para meus amigos, para namorada… só não posso dizer que foi uma leitura rápida, pois algumas páginas eram são tão fortes que me obrigava a estacionar e as ler varias vezes. No capitulo 10 e 11 temos um dos momentos mais dramáticos da obra de Miller, quando ele é abandonado sozinho em Nova York por sua esposa que viaja a Paris. Fui arrebatado pela força dos sentimentos e beleza do texto.

Os livros da Crucificação Rosada podem ser descritos como um longo monólogo onde Miller relata a história de um homem que sonha em se tornar escritor, mas que não consegue se libertar de um estado mental improdutivo e da pobreza em um Brooklyn dos anos 1920. Podem também ser descritos como uma longa carta de amor à uma mulher que o hipnotiza em uma rede de mentiras, malfeitora e benfeitora, pois é a única a acreditar inteiramente no talento de seu amado e a busca deste; ela o convence a abandonar o emprego para se dedicar a escrita e alimenta sua mente com ilusões a respeito da cidade dos artistas, Paris, trazendo dinheiro para casa de maneiras sempre suspeitas ou através pequenos favores.
Cada página é um canto de dor, vida, arte, pessoas comuns, grandes autores, amor, sexo, deus, mentiras, tédio. Miller mistura fragmentos do passado, presente e futuro para fugir de uma análise simples de causa-e-efeito em busca de significados mais profundos, até a Crucificação do artista; tema de toda obra.

trecho do capítulo 11:

It was after I had opened my eyes and found that I was alone, though not deserted, not abandoned, that instinctively I raised a hand and placed it over my heart. To my horror there was a deep hole where the heart should have been. A hole from which no blood flowed. Then I am dead, I murmured. Yet I believed it not.

At this strange moment, dead but not dead, the doors of memory swung open and down through the corridors of time I beheld that which no man should be permitted to see until he is ready to give up the ghost: I saw in every phase and moment of his pitiful weakness the utter wretch I had been, the blackguard, nothing less, who had striven so vainly and ignominiously to protect his miserable little heart. I saw that it never had been broken, as I imagined, but that, paralyzed by fear, it had shrunk almost to nothingness.

I saw that the grievous wounds which had brought me low had all been received in a senseless effort to prevent this shriveled heart from breaking. The heart itself had never been touched; it had dwindled from disuse.It was gone now, this heart, taken from me, no doubt, by the Angel of Mercy. I had been healed and restored so that I might live on in death as I had never lived in life. Vulnerable no longer, what need was there for a heart?Lying there prone, with all my strength and vigor returned, the enormity of my fate smote me like a rock. The sense of the utter emptiness of existence overwhelmed me. I had achieved invulnerability, it was mine forever, but life—if this was life—had lost all meaning.

My lips moved as if in prayer but the feeling to express anguish failed me. Heartless, I had lost the power to communicate, even with my Creator.

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