Um pouco de literatura francesa – PARTE 2

setembro 21, 2011 § 2 Comentários

David Foenkinos me comoveu em seu livro Quem Se Lembra de David Foenkinos? (ed.rocco)
Trata-se daquele velho cenário do autor-escritor em busca de inspiração, a diferença aqui é que se trata de um autor em vertiginosa decadência, vivendo à sombra de sua estréia e único livro de sucesso, tudo surpreendentemente verdadeiro. Uma cena forte do livro, para mim especialmente, é aquela da tarde de autógrafos onde não aparece ninguém. Vejo essa cena vez e outra na livraria onde trabalho e é algo muito, muito triste; pense a respeito. Multiplique esta sensação ao se tratar de um autor premiado, sucesso de vendas… cinco livros atrás. O livro de sucesso assombra o escritor, o passado assombra todos nós.*
“No dia seguinte puseram uma foto minha no hall com a menção “empregado do mês”. Isso me fez pensar nos meus primórdios literários, quando havia um retrato meu no hall da editora Gallimard.”
Mas não é apenas historia de um escritor, é principalmente uma história de amor, viagens de trem, sonhos e objetivos na vida. Várias frases do livro podem decorar cadernos de universitários e apaixonados;

“A beleza impele certas mulheres a um mundo onde a amizade não existe”

“pode-se amar mais uma mulher do que confundindo-a com uma ficção?”
Li as 160 paginas em dois goles, na poltrona da Livraria Escariz, mais tarde comprei e passei para a namorada ler; continuo indicando ele até hoje.


Fiz uma encomenda então do tão falado livro Le Potential Érotique de Ma Femme, seis semanas depois a livraria cultura me entrega uma copia novinha e baratinha do livro-karma de David Foenkinos (adorei a capa!).  obs; há edição nacional, também pela rocco.
Comecei a ler; A primeira cena abre com uma referências cult, uma piada em cada frase e uma tentativa de suicídio fracassada, tudo muito bom. Mas acontece que, muito diferente do livro acima, a coisa demooora a engatar. sabe aquele caso onde o Trailer é melhor que o filme?
O autor constrói todo o backinground do personagem para justificar sua obscesão por coisas pequenas, o que o levou a tentar suicidio, mas a sensação que tive era que tudo isso não importava muito e poderia ser reduzido a bem menos páginas. Risquei então no livro o momento onde a história começava pra valer – página 61 – Após vários parágrafos me arrependi e marquei o verdadeiro começo no livro na página 85:

“la manque de netteté des vitres, c’est le début de notre drame”

Mas após a centésima página comecei a perceber que o melhor do livro já tinha passado, todo o erotismo de sua mulher correspondia a apenas um gesto; limpar as janelas, e isso fica velho rápido. Falei sobre repetição no livro do Carrére, mas nóoossasenhora, a repetição DESTRÓI este aqui. Todo o desenvolvimento do personagem Acaba no exato momento em que a história começa.  O personagem é completamente antipático; e não é devido ao fato de se tratar de um colecionador freak – taí o Jonathan Safran Foer  que não me deixa mentir – o potencial erótico do livro se desfaz em uma coisa estúpida; lavar janelas. Nem quando Hector se descobre traído por sua mulher a trama avança, ele prefere não interfirir em nada, não explorar este potencial que o título evoca.
Para não falar apenas mal do livro o Humor é o que me fez encarar 130 páginas (sim, eu não cheguei até o FIN) do livro. Praticamente toda frase do livro é uma micropiada, a ironia e a sagacidade, o Wit, mostra que Foenkinos é realmente um escritor em que vale a pena apostar. Felizmente Foenkinos se distancia bem do seu personagem e não deixa as duas vozes mesclar. Esta passagem mostra bem isso:

il aurait pu mourrir ce jour-lá puisque Thomas Mann avait écrit: “celui qui a contemplé la Beauté est dejá predestiné à mort.” Brigitte lavant les vitres, c’était un peu son Mort à Venise à lui. Mais Hector ne savait pas qui était Thomas Mann, alors il pouvait survivre. L’inculture sauve bien des vies.

genial ;D

*editado: peguei o livro para ler mais algumas páginas e fui surpeendido por uma ótima reviravolta no final da terceira parte  =)

aproveitando o clima, outra passagem muito legal;

Hector était exactement le type d’homme qui ne supporte pas qu’on lui organise des anniversaires ; dans sa tête, il n’y voyait que conspiration. On avait parlé derrière son dos, on avait arrangé la surprise comme d’aures fomentent des traîtrises.

*Assistam também o filme JCVD

Anúncios

Marcado:, , , , , , , , , , ,

§ 2 Respostas para Um pouco de literatura francesa – PARTE 2

  • Edu Almeida disse:

    Obrigado pelo comentário no meu site. A propósito, o seu é muito bacana, vou continuar a ler, aprender e me divertir com seus textos. Abraços.

  • Aline T.K.M. disse:

    Oi Leonardo! Agradeço a visita no meu blog e vim conhecer seu espaço. Já adianto que gostei muito dos seus posts sobre literatura francesa. Não conhecia este autor mas gostei bastante das passagens deixadas no post. Apesar dos comentários negativos em relação às repetições, não fiquei de todo desanimada; estou com bastante vontade de ler alguma obra do autor.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

O que é isso?

Você está lendo no momento Um pouco de literatura francesa – PARTE 2 no Leonardo Bandeira.

Meta

%d blogueiros gostam disto: