Um pouco de literatura francesa – PARTE 1

setembro 21, 2011 § Deixe um comentário

Por acaso (ou não) os últimos escritores franceses que chamaram minha atenção, e dos quais gostei de pelo menos algum livro, foram autores -não de humor-  autores mau-humorados. Será o sarcasmo e o descompromisso uma característica da nova literatura francesa? Sei lá. Estou aqui para escrever sobre um desses autores, e aproveitar a deixa para lembrar dois outros que possuem um lugar especial em minha prateleira.

O livro que peguei esta semana se chama LA MOUSTACHE ; revendo algumas de minhas anotações havia um nome; Emmanuel Carrére, com a seguinte recomendação; procurar depois. Procurei, e vi que na prateleira de literatura francesa haviam vários títulos deste autor até então desconhecido para mim. La Moustache me pareceu a escolha natural, piada recorrente entre os amigos, desafios para saber quem consegue cultivar o maior bigode, etc. E a história de um homem que após 10 anos decide raspar seu bigode, ninguém se dá conta disso, sua esposa nem seus amigos, e enlouquece sem saber se jamais possuiu um bigode; escolha feita.
Apesar de ser uma história curta, os capítulos do livro são longos e a ação bastante lenta. O humor surge no texto como única reação possível diante do absurdo da situação; o protagonista não admite estar enlouquecendo, investiga se não seria sua esposa que estaria louca, alguns leitores poderão em dúvida sobre que time escolher, mas a voz narrativa não se afasta do (ex)portador do bigode. Um detalhe inesperado no livro é como o casal, apesar do momento delicado causado pela loucura (de quem?) mostra-se um casal muito amoroso, em um casamento de cumplicidade e confiança, algo raríssimo na literatura (e na vida?)! Algumas cenas se tornam bastante bonitas quando um dos dois precisa ceder para o bem-estar de ambos; destaco uma pequena passagem, após uma briga do casal, antes de dormir ela fala

A mon avis, dit-elle, Serge et Veronique sont déjá réconciliés. On pourrait peut-être faire comme eux.

Se algo compromete a premissa, talvez seja a repetição, muitas vezes o recado de que alguém não está vendo o bigode já foi dado, mas o autor continua a detalhar e explicar isto.

O livro foi editado “pela primeira vez no Brasil” pela editora Alfaguara, com uma capa bem simpática, sem aquela loucura da capa da Folio. Dei uma comparada na tradução e achei formal demais, ainda que corretíssima. Utilizar Farsa ao invés de Brincadeira, ainda que Farsa seja o significado mais adequado, distancia o texto da linguagem comum, comprometendo a fluidez e o humor. Ao traduzir expressões e gírias, a edição não arrisca, ficando em um lugar de conforto.

Para os curiosos, além do livro, o autor também escreveu a adaptação para cinema de La Moustache (2005). No filme temos atuações excelentes, especialmente de Vincent Lindon. A cena no começo do filme quando Serge mostra o rosto liso para a esposa e não provoca nenhuma reação é hilária, a decepção do personagem que ocupa páginas no livro é perfeitamente expressa nos olhos do ator. O filme é diferente, principalmente por não haver a voz mental do personagem, mas bastante fiel ao texto.

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