Duas vezes os Três Mosqueteiros

agosto 9, 2011 § Deixe um comentário

…mais importante que ler, é reler
Desde que li esta frase em um livro de Borges, reflito sobre seu significado e olho para os meus velhos livros na estante com a expectativa de uma  redescoberta, de fazer uma leitura totalmente diferente da primeira, ler um livro diferente. No entanto, difícil é resistir ao novo, ao  desconhecido, então continuo como um consumidor voraz de livros, desmerecendo talvez o valor de  minha pequena coleção; sim, pois poucos livros que li nos ultimos anos tiveram em mim o mesmo impacto que as obras de Voltaire, Balzac, Henry Miller, ou mesmo coisas mais casuais como A Ilha do Tesouro – um dos favoritos  aos 14 anos.
Outro grande favorito era o Três Mosqueteiros, que li  naquela coleção da Abril em 2003, foi meu primeiro livro de Dumas, catei tudo que consegui achar dele em seguida, sempre uma leitura muito leve e rápida,  perfeita -imagino- para o formato Folhetim onde  foram publicados.

Veio a calhar então uma nova e charmosa edição da Jorge Zahar, em formato de bolso, precinho camarada e uma tradução respaldada. Decidi então por em  pratica o axioma supracitado e comecei a (re)ler o  livro no caminho do trabalho de ônibus. Um capítulo na ida, um na volta, às vezes dois. Talvez eu devesse ter escolhido um lugar melhor, pois as risadas que a leitura me provocava não eram nada  discretas.
Muita gente nem imagina que Os Três Mosqueteiros é um livro hilário! E isso não somente pelos personagens fanfarrões, situações esdrúxulas; também pela interferência do autor -algo condenável na literatura moderna- que faz graça de seus próprios  personagens;
“Bonacieux chorou como um autêntico dono de armarinho, não sendo de forma alguma homem de  espada, como ele mesmo admitiu”.
Os Três Mosqueteiros é também um livro “de época”, mesmo quando foi publicado, em meados do sec. XIX, pois se passa 200 anos antes em volta do evento  histórico do Cerco de La Rochelle. Ainda que, como de costume, o autor não seja factual, inventando  histórias de amor e personagens que jamais existiram, é muito divertido imaginar estes  personagens reais e suas motivações secretas.  Relendo o livro pude notar referências históricas  que me passaram despercebidas antes, ainda que alguns nomes já entreguem o desfecho de alguns  personagens, como a relação Felton/Buckingham, o  desenvolvimento destas ações são o que tornam a  narrativa interessante; nenhum spoiler é capaz de  spoil o livro, queremos saber não O Quê, isto está  nos livros de história, mas Como, isto pertence a  imaginação de Dumas.
Além do livro, baixei na internet diferentes adaptações para cinema e televisão, sendo a que mais gostei o filme de Richard Lester -diretor de Help! e outros filmes dos Beatles- para simplificar; é uma perfeita adaptação do/de livro para o cinema. Tudo funciona. Talvez o mais complicado de reproduzir  sejam os combates de esgrima, difíceis de imaginar  até mesmo na leitura pois é algo que não possui registro histórico e em outros filmes sempre parecem  artificiais, não aqui, apesar de coreografadas, as lutas passam a sensação do risco de morte e de  improvisação. O humor é muito presente também,  balanceado perfeitamente com a intriga.
Como toda (boa) adaptação, não se trata se uma cópia fiel do texto, e algumas mudanças precisaram ser feitas para enxugar o filme; personagens foram cortados, outros foram misturados, os cenários foram reduzidos, separei as mudanças em alguns pontos  importantes da trama:
No primeiro duelo, D’Artagnan:
Livro: Mata Jussac, conhecido como grande duelista
Filme: Jussac reaparece no final para o clímax  dramático

 

Com a senhora Bonacieux:
Livro:
D’Artagnan já mora de aluguel com Bonacieux,  este se aproxima do herói pedindo socorro no rapto  de sua esposa – que ainda não apareceu.
Filme: D’Artagnan conhece a sra. Bonacieux assim que  chega na estalagem, mais tarde fazem sexo.

A Rainha:

Livro: presenteia Buckingham com agulhetas de  diamante em um encontro secreto.
Filme: presenteia um colar de grandes diamantes e  uma grande luta acontece.

 

Viagem para Londres (maior mudança):

 

 

 

 

 

Livro: cada mosqueteiro é derrotado em um diferente  lugar, D’Artagnan chega a Londres após uma luta com  Wardes. D’Artagnan vai em busca de seus companheiros  APÓS completar sua missão.
Filme: os três mosqueteiros são atacados no mesmo  local, D’Artagnan luta contra Rochefort, Planchet  ajuda os Três a encontrar D’Artagnan na festa da  Rainha, onde um novo combate acontece.

além de claro; Grimaud, Musqueton e Bazin não  aparecem no filme.

Um -nada pequeno- detalhe que pode passar desapercebido é que o filme cobre apenas metade do  livro(!!). Bem, mais ou menos, apesar de não conter nenhuma divisão explicita, o livro de dumas possui  dois momentos bem distintos. A primeira parte trata  do caso das agulhetas de diamante da Rainha, a  segunda cobre os eventos históricos do cerco de La Rochelle, com foco na personagem Milady. É notável a diferença de estilo de uma parte para outra; ao fim  do livro não se tem os mesmos gracejos do começo, o clima é sombrio, com passagens eróticas, e a  história é mais arrastada, demorando mais capítulos  em eventos pequenos, como o jantar dos quatro amigos  no meio do campo de batalha ou no cativeiro de Milady chega até a ficar um tanto enfadonho. O filme cobre, portanto, apenas a primeira trama – fazendo  todos os ajustes necessários para criar um Final  onde no livro segue-se normalmente. Tudo muito bem feito, mesmo forçando um ‘final feliz’ entre o  mocinho e a mocinha salva.
Porém tal decisão parece ter acontecido durante o  processo de filmagem, pois foram gravados dois filmes no lugar de um (!!), houve até um processo aberto pelos atores ao perceber tal situação – exigindo receber por dois filmes, e não um.
O segundo filme é chamado Os Quatro Mosqueteiros, com D’Artagnam já promovido, ou A Vingança de Milady, é o filme que irei assistir hoje a noite, e estou muito curioso para saber como eles amarraram toda a história… 🙂

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