José Eduardo Agualusa

junho 14, 2011 § 2 Comentários

capa

Outro livro que recomendo a todos; Milagrário Pessoal é um exemplo de domínio da linguagem, vitalidade da literatura e de leitura prazerosa. Agualusa esteve em Salvador para autografar este que é seu ultimo livro e dar palestras para professores e alunos que se preparam para o vestibular da UFBA – seu livro Nação Crioula cai no vestibular.  Depois de lotar o teatro Castro Alves, o escritor esteve na Livraria Cultura de maneira bem discreta – na hora marcada ainda eram poucas as poltronas ocupadas… o que foi decepcionante, mas pelo lado positivo a plateia não estava formada por adolescentes e o debate se deu num alto nível intelectual – ainda que insistissem em perguntar sobre o novo acordo ortográfico, Agualusa destruiu os corações dos reclamões dizendo logo na primeira frase que o acordo não era mais “novo”, etc etc…
Sobre o que é o livro? – me perguntaram  – o livro é sobre a língua portuguesa, respondi, mas não se trata apenas de um longo discurso teórico, achismos ou exercício de ego; os elementos tradicionais de um Romance estão todos lá. Existem dois personagens centrais que embarcam juntos em uma viagem de mistérios, se envolvem, e encontram coisas muito diferentes do que se esperava a princípio – quase uma aventura!
No próximo paragrafo está uma tentativa de resumo da ação do livro, com uma interpretação bastante pessoal do desfecho, já que o livro permite várias leituras
Iara se depara com alguns Neologismos e não consegue definir qual a origem destas palavras, busca então seu antigo professor, especialista no assunto, para ajudá-la. Ele lhe explica então que tais palavras são Neologismos Perfeitos, pois se misturam na língua comum sem causar nenhuma suspeita, como se sempre existissem. O professor levanta algumas teorias sobre palavras originadas na língua dos pássaros e revela um manuscrito antigo contendo alguns exemplos destas. Partem então para o Brasil, ao encontro de um poeta ultra nacionalista que defende a língua portuguesa dos anglicismos e outros neologismos. Em Olinda o manuscrito é roubado e Iara e o Professor retornam a Portugal para novas pesquisas. Lá, em desespero pelo amor de Iara, o professor revela ter inventado tudo para ter uma chance de se aproximar da ex-aluna. Abandonado, enlouquece e crê que toda a aventura foi real, e que faz parte do grupo que guarda os segredos da língua dos pássaros.
Durante todo o livro, as discussões sobre a língua portuguesa mergulha em deliciosos diálogos, escapando da linearidade dos romances de aventura, por vezes causando pulos no tempo e na voz narrativa, a ação é colocada em suspense frequentemente. Pode-se dizer até que a ação não é o principal objetivo do livro, apenas um fio narrativo onde se encaixam pequenas historias, anedotas e causos. Outro ponto de interesse é notar como, apesar de Angolano, não existe distanciamento da linguagem para nós brasileiros, e caso não fossem alguns acentos diferenciados na ortografia, poderia-se achar que se trata de um novo livro do escritor de Budapeste (chico buarque). Até mesmo pela presença massiva de referências a autores brasileiros, Caetano Veloso aparece já na segunda página e mais para frente temos a transcrição da música favorita dos professores de português; Língua, do próprio Caetano. Mas não só isso, temos também Camões, Camilo Castelo Branco, Machado de Assis… mais que o suficiente para mostrar a força cultural que a língua portuguesa possui; e será que precisamos ouvir isso de um país até pouco tempo colonizado?
Na fila de autógrafos perguntei para o autor se ele ensaiara criar alguns dos neologismos perfeito dos quais seus personagens falam; me respondeu que se fossem mesmo perfeitos nós não nos daríamos conta disto – e olhe lá “milagrário” estampado na capa.

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§ 2 Respostas para José Eduardo Agualusa

  • boa leonardo.
    belo blog. vou espiar por aqui de vez em quando.
    abraços
    aguinaldo

  • von Koenig disse:

    Rapaz, ocupo-me tanto com os clássicos antigos que não me sobra tempo para qualquer coisa atual, mas admito que ao ver tuas resenhas até me bate uma vontade de ler esses livros que sequer conheço.
    E repara nisto: já é pelo menos o terceiro livro que comentas no qual o personagem principal é escritor ou intimamente relacionado à escrita e à linguagem. Percebo que essa é uma tendência muito forte dos escritores contemporâneos – transportarem-se para as obras e falarem sobre seus trabalhos. É interessante, ao menos para mim que sou escritor, no entanto tu não achas que a literatura moderna está demasiado voltada para os próprios escritores, e não para o público em geral?

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