O unico final feliz para JP Cuenca é um acidente

maio 25, 2011 § 3 Comentários

Livrinho muito estranho este do JP Cuenca, é um bom livro, recomendo a leitura, mas no mínimo me deixou com opiniões divididas. O livro faz parte da série Amores Expressos da Companhia das Letras – e se a intenção aqui foi se imergir na cultura japonesa, acredito que o autor teve êxito. Não que meus conhecimentos sobre literatura japonesa tenham qualquer alcance, tudo o que sei da cultura japonesa aprendi nos ANIMES e nos videogames. Só sei que Cuenca não escreve como um brasileiro, às vezes dá até a impressão de ser um livro traduzido indiretamente do inglês a partir do original japonês; com expressões-feitas tipo ele-mesmo (himself) ou bebezinho Shun (baby-shun), ou ainda os pronomes de tratamento japoneses que se “perderam na tradução” Sr.Okuda (Okuda-san). Não soam como bom português.

O livro acerta em algumas imagens vibrantes. Se quiser ter uma boa idéia leia na página 78 a passagem que termina com “Iulana Romiszowska, ao contrario de todas, sempre me fará sentar à direita do teatro”. É muito bonito, e proporcionalmente terrível, temos uma passagem de estupro no capítulo 28.
Como o título indica, um Acidente faz a ligação entre o começo e o fim do romance. Em um recurso divertido, reproduzido em menor escala ao longo de todo o romance, o capítulo 3 é reproduzido integralmente no capítulo 30, e apesar de terem exatamente as mesmas palavras causam sensações muito diferentes. O que me faz lembrar daquele conto de Borges sobre Dom Quixote.
O problema é que muita coisa no livro é abandonada antes do fim. Apesar da aparente simetria da construção do texto, as ações raramente possuem justificativas internas. Talvez a falha mais aparente sejam os capítulos onde o narrador é a Boneca Yoshiko, que receberam um tratamento todo especial de tinta vermelha e itálico,  mas que não têm nenhum propósito narrativo – não passa de uma brincadeira estilística. Outras micro-tramas como os poemas escritos pelo Sr.Okuda durante o seu “exílio” da mídia – que são trocados por favores sexuais de uma das personagens – e que valeriam ouro, são simplesmente esquecidos no fim. As repercussões de uma entrevista polêmica dada pelo filho do Sr.Okuda também são ignoradas; isso mostra que o autor mais uma vez colocou o estilo na frente da narrativa e assim o fez apenas para dizer o que queria dizer sobre o passado do personagem de uma maneira ´diferente´. Se estivéssemos lendo um romance com o rigor de Flaubert a entrevista teria um propósito de ser uma entrevista – e não apenas um artifício para falar do passado do personagem… e citando o Reinaldo Morais, de quem falei no post anterior;
“problema é que o escritor é um bicho essencialmente vaidoso […] Daí o primado do estilo sobre o conteúdo. Ou pior: do estilo como conteúdo.”
Então, para resumir tudo em uma casca de noz (in a nutshell), O livro fala sobre um pai controlador que destrói a vida do filho para que ele fique preso em sua rede e continue seu legado. Seja ele qual for.

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§ 3 Respostas para O unico final feliz para JP Cuenca é um acidente

  • […] mais: O unico final feliz para JP Cuenca é um acidente « Leonardo Bandeira Esta entrada foi publicada em Sem categoria e marcada com a tag acidente, bandeira, cuenca, […]

  • von Koenig disse:

    Leonardo, obrigado pelo comentário e pela recomendação do vídeo. Acrescentei-o à postagem e desenvolvi um pouco mais o texto com um aspecto que faltava.
    Agora, quanto ao teu blogue… Li os textos de “Um erro literário”, “O Conde de Monte Cristo” e a tua tradução de um certo francês. De tudo que escreveste, pelo menos na primeira página, só conheço O Conde, Oldboy e Henry Miller (gosto mais dos Clássicos, já notaste). Mas uma coisa é certa: mesmo que não os conheça, teus textos são bastante claros e acessíveis. Dá para se ter uma boa noção do que se passa nesses livros desconhecidos.
    Ficarei de olho para ver se aparece algo que já li por aqui. Abraço!

  • von Koenig disse:

    Ah, e não encontrei o botão de Feed no teu blogue… Já pensaste em pôr? Seria útil.

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