Um erro literário – Marcelo Backes e Cristovão Tezza

março 14, 2011 § Deixe um comentário

Estou lendo um muito agradável livro do Cristovão Tezza, Um Erro Emocional, logo após de ter abandonado o nem-tanto Três Traidores e uns Outros de Marcelo Backes. Os dois livros carregam algumas características em comum que me permitem compará-los e tentar entender em que um acertou e em que o outro deixou a desejar.

 

Ambos publicados pela editora Record em 2010 com um tratamento de arte bem legal… os livros do Tezza com essa forte identidade visual que nos dá certeza que se trata de uma obra especial, pecando apenas na contracapa carregada demais com elogios da mídia, e o Backes com uma capa bem estranha que eu prefiro não interpretar, sem nenhuma palavra na contracapa, o que paradoxalmente acho ruim pois se trata de um autor menos conhecido. Nunca li nada de nenhum dos dois autores; a temática do premiado Filho Eterno não me atraiu nem um pouco, parecia um dramalhão, e quanto ao Backes, se contar, li sua tradução de Sofrimento do Jovem Werther ainda bem novo.

 

Ambos os livros tem como personagem O Escritor, algo cada vez mais presente na literatura desde Henry Miller, e que provoca uma associação bem positiva para mim. Quando li então que o personagem do livro do Marcelo Backes era um tradutor (!) procurei logo se havia algum exemplar na Cultura. Foi com essa expectativa do personagem-escritor-tradutor, revelando talvez um pouco do mundo da tradução que iniciei a leitura.

Contribuindo muito para minha frustração, na primeira parte do livro o personagem-escritor pouco aparece, não se faz uma apresentação decente, ao invés disso, fala-se muito sobre “o Toz”, personagem que desaparece no restante da trama apesar de arrastar a leitura até a página 39. Minha primeira impressão, confirmada em um blog de um amigo do autor, era de que se tratava de um Conto escrito em outro contexto que o Autor modificou de maneira a abrigar o personagem do romance; conseguindo assim apenas passar a impressão de uma colcha de retalhos e da falta de um projeto coeso para o romance. (algo idêntico acontece no livro Mãos de Cavalo, de Daniel Galera).

Enfim, o conceito do romance é muito bacana, divido em quatro partes mais um epílogo, o livro retrata a vida do personagem-escritor-tradutor em diferentes momentos de sua vida, partindo da velhice para a juventude. Após o mau começo, na segunda parte o trem se alinha nos trilhos e nos mostra o personagem em um encontro de tradutores na alemanha. Tudo o que eu esperava do livro estava ali, curiosidades sobre o alemão, dificuldades da tradução, a eterna luta por reconhecimento e o esforço por se manter fiel ao original. O que eu não esperava eram a incrível quantidade de frases de efeito e palavrinhas de dicionáro como:

“os pombos que não paravam de fornicar na clarabóia […] Donde, pois, tanta euforia reprodutora?”

Qual é, pra quê essa verborragia? vai me dizer que alguém fala, ou pensa, assim? Se a intenção do autor era trabalhar a língua em sua profundidade e lirismo, a estrutura literária simples trai esse motivo e as palavras bonitas conseguem apenas passar a impressão de que havia um bom dicionário de sinônimos ao lado do escritor. A narrativa dos capítulos é extremamente linear onde o autor tenta manter certos aspectos em suspense da maneira mais simples possível; não nomear. Vemos então personagens sem nome como “aquela sueca famosa” ou ganchos simples como “Onde estava Latica, por exemplo? nem sinal dela” fechando o capítulo de duas páginas.

Na terceira parte, chamada O Pé Direito, as coisas pioram. Todos os capítulos abrem com um parágrafo sobre o pé mutilado do personagem, e os restantes fazem uma narrativa de suas aventuras sexuais. Esta estrutura narrativa é muito, mas muito fraquinha… não sei se tem um nome melhor para isso, mas eu chamo de Salto Temporal… quando o texto pula de um momento no tempo para outro, Tezza faz isso Muito bem, Henry Miller faz isso de uma maneira fantástica, mas Marcelo Backes não. Além disso me irritou a maneira com que o autor fala das mulheres, que são interessante apenas antes da conquista, a ex-mulher portanto, é colocada sempre nas sombras, e quando o personagem se casa com a mulher em questão, ela é rapidamente colocada para fora do baralho e não se fala mais nisso! Só falaremos agora das amantes. O personagem, que usa da teoria de que Mulheres Gostam de Homens Arrogantes continua soltando frases-feitas com a ajudinha do próprio autor, que adora frases sem sentido como: “o caráter razoável de minha constatação não diminuiu minha angústia” (???) A esta altura eu já estava desistindo do livro, dei então uma olhada no Crisovão Tezza que me fez abandonar de vez a leitura No Meio do Caminho. Pois Tezza É tudo o que Backes tenta ser.

Cometi um erro emocional – a frase abre de maneira fantástica o livro; direto, poético, simples… uma mistura difícil de se realizar. Mergulhamos de vez na mente dos personagens Beatriz e Paulo, o escritor. Tezza utiliza de uma maneira bem pessoal o (parênteses) e o -hífem- para intercalar a ação com o mundo interior dos personagens. Desta maneiras lemos não apenas o que os personagens dizem, mas os que eles pensam em dizer! Lemos também as associações que cada um têm a a partir do momento da ação com seu passado. Uma palavra dita por Beatriz lembra a Paulo algo em sua ex-esposa, um gole de vinho de Paulo, um gesto, faz Beatriz pensar como irá contar o que aconteceu à sua amiga. Assim, o passado e o futuro dos personagens se mesclam à ação da narrativa, que é na verdade um momento ínfimo, uma visita, uma garrafa de vinho, 40 minutos de espera até a pizza chegar espalhados em 66 páginas; muitas páginas para tão pouco tempo, mas ao invés de tornar a leitura chata, me faz devorar as páginas para tentar capturar as menores reações aos menores dos gestos, tudo em perfeita harmonia com o perfil dos personagens que é expandido página a página.

Ao contrário do livro do Marcelo Backes, as palavras escolhidas por Tezza dão muita fluidez à leitura, um vocabulário rico e claro, imagino até que daria um bom áudio-livro, enquanto é a estrutura narrativa que é complexa. Os capítulos também são mais longos, o que mostra mais fôlego, interrompidos em média a cada 5 páginas, enquanto Backes raramente nos segura por mais de 2. Ainda não terminei a leitura, acho que irei voltar ao livro logo depois de postar isto, então não sei se o Tezza é um escritor retratista, ou se vai jogar alguma reviravolta na trama. De um jeito ou de outro é fácil ver neste Um Erro Emocional a qualidade de um escritor de carreira, o talento natural de um grande escritor.

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