Anatole France – o personagem filólogo

dezembro 31, 2010 § Deixe um comentário

Monsieur Bergeret, personagem da série História Contemporânea, é talvez a maior criação de Anatole France. Não obstante, trata-se de um personagem apático e misantropo. A inspiração para este perfil veio de um conhecido do escritor, professor de letras, mas também deixa transparecer as agonias de um romancista preso a uma tradição secular em pleno momento de efervescência cultural.

A escrita de Anatole France é dura, formal. É também clara e exata. Começou sua obra no final do sec. XIX, contemporâneo de Zola, fez parte da Academia Francesa e foi laureado com o nobel de literatura em 1921, 1 ano após Knut Hamsum, 3 anos antes de sua morte.

Era um escritor de personalidade e popularidade, se envolveu em questões políticas e opinava como crítico literário. Seu estilo purista tratava a poesia moderna, em versos livres, como se fossem fruto de uma inocência, não como trabalho sério. Agradava desta forma um público que ainda não compreendia os novos caminhos literários e era exaltado como símbolo dos nobres valores. France era muito popular, e muito lido. Tido como modelo intelectual, era o que poderíamos chamar de best seller em seu tempo.

Tais afirmativas parecem ter difícil associação, mas como nos mostra o arquivo do New York Times: “His fame has already grow so large in all lands where the best literture is apreciated that it dont not need the formal stamp of a prize” (GORDMAN, 1921).

É interessante notar que mesmo em meio a grandes mudanças na literatura, como a quebra de tabus e de gêneros, France tenha sido tão bem sucedido. Constatamos ao ler sua “história contemporânea” que a imagem que temos da virada de século pode ser não tão exata. Sua popularidade mostra que France representava a “boa literatura”, contra o movimento que se formava com Proust, Joyce e Celine; todos sofreram processos acusados de obscenidade, enquanto France não utiliza uma palavra ofensiva e se mostra bastante recatado, mesmo descrevendo cenas de adultério. Flaubert fora processado 50 anos antes por Madame Bovary, que é, sem dúvida, muito mais sugestivo que a História Contemporânea.

Ainda assim, France trás em sua narrativa características típicas do séc. XX: Ausência de trama, narrativa deformada pela psiqué do personagem, e monólogos tais como seriam desenvolvidos posteriormente por Joyce.

Analisaremos aqui excertos dos primeiros volumes da série História Contemporânea; À Sombra do Olmo e O Manequim de Vime. (FRANCE, 2009a e 2009b).

M. Bergeret leciona na faculdade de letras e tem como únicos hábitos visitar uma pequena livraria e debater questões políticas à sombra dos olmos com o superior do seminário, Lantaigne. Apesar da rotina tranquila, M. Bergeret vê-se excluído da sociedade a qual pertence por prestar um trabalho qual ninguém se importa e não encontrar condolência mesmo entre os colegas da faculdade

Seja como for – disse o senhor Compagnon -, nossa faculdade é uma das mais distintas da França pelo mérito dos seus professores e pela excelência das instalações. Apenas os laboratórios deixam ainda a desejar. Mas espera-se que […] essa lamentável lacuna será finalmente sanada. Seria desejável também – observou monsieur Bergeret – que o curso de latim não fosse mais dado em uma sala escura e pestilenta. Trecho 1 (FRANCE, p.43-44, 2009a)

Acompanhamos sua rotina na obra, onde a ação é excluída da narrativa. A ambientação é formada através de diálogos que comentam fatos ocorridos anteriormente, reconstituídos através da lente distorcida do personagem. O objetivo da narrativa, desta maneira, é descrever a visão de mundo de M. Bergeret.

Este modo de ver de M. Bergeret apresenta-se deformado principalmente por sua carreira intelectual, em um nível que não é capaz de julgar o mundo exterior fora da esfera de seus livros.

Quando monsieur Bergeret entrou na loja, o livreiro Paillot, com um lápis atrás da orelha, juntava os “refugos”. Empilhava volume cujas capas amarelas, por muito tempo expostas ao sol, haviam escurecido e sofrido a marca das moscas. Eram os exemplares encarlhados que ele devolvia aos editores… Monsieur Bergeret reconheceu, entre eles, obras que apreciava. Mas não se aflingiu por isso, sendo por demais refinado para desejar aos seus autores preferidos o reconhecimento das massas.Trecho 2 (Id. Ibid, p. 119)

Qual intelectual não experimentou sentimento semelhante? A moda, em suas diferentes formas, guia a sociedade de consumo em seus gostos e preferências com rápida transitividade, o que se aprecia hoje é substituído na estação seguinte de modo a manter a roda girando. Àqueles que são guiados por outras motivações ao consumo, resta um pequeno mercado que só sobrevive pela paixão de poucos.

Entre estes poucos apreciadores de “refugos”, é ainda mais difícil encontrar aqueles que dividam os mesmos gostos, pois não são poucos os gêneros literários. M. Bergeret não se identifica mesmo com os outros acadêmicos da faculdade, tendo especial desafeto com o Reitor. Este desafeto eleva-se da esfera pessoal na obra; Bergeret representa a filologia, o reitor representa o sistema universitário, os outros professores cada um sua matéria.

Bergeret tem como único amigo o abade Lantaigne, superior do seminário, que de seu lado também não encontra em seu meio quem aprecie o saber. Esta amizade tão improvável é vista com maus olhos por ambos os lados, porém o alívio de se expressar e ser entendido reforça o laço entre os dois amigos. Podemos testemunhar esta amizade no trecho a seguir:

Sentado em um banco da alameda, o abade Lantaigne, superior do seminário, e monsieur Bergeret, docente da faculdade de letras, palestravam segundo seu costume de verão. Em tudo e por tudo tinham diferentes maneiras de sentir; jamais houve dois homens tão opostos em espírito e feitio. Mas só eles na cidade se interessavam por idéias gerais. Esse era o traço comum que os unia. Filosofando sob os quincôncios quando fazia bom tempo, um, das tristezas do celibato. O outro, dos percalços da família, e ambos das contrariedades profissionais e de sua igual impopularidade. Trecho 3 (FRANCE, p.105, 2009a)

O que se segue é um longo diálogo sobre Joana D’arc, como em outros capítulos onde se fala de teologia ou da República. Anatole France conduz estes diálogos como principal foco narrativo, chegando nestes trechos a excluir a voz narrativa e representar o dialogo de forma direta, como em peças de teatro.

O abade Lantaigne representa, além dos acadêmicos, uma categoria baseada na formação intelectual. Seu gabinete de trabalho possui “prateleiras de pinho cobertas com as encadernações […] de Migne […] de Santo Tomás de Aquino, Baronius e Bousset.” (Id. Ibid, p.11) e “gozava grande reputação de virtude, erudição e eloquência.” (Id.Ibid, p.33). Tal paixão intelectual leve o abade até mesmo a procurar, sob disfarce, representações das peças de Moliére.

A tolerância do abade com assuntos não-religiosos pode parecer contraditória; tal impressão é resultado do fato de deixarmos, a longo tempo, de associar a prática religiosa com a intelectual. Se buscarmos em outros textos não será difícil encontrar testemunhos do regime dos seminários onde a disciplina intelectual é amplamente valorizada. Quanto aos estudos clássicos, devemos ser gratos aos monastérios que preservaram obras da antiguidade; mesmo àquelas de diferente ideologia.

Em um trecho, Lantaigne defende o colega dizendo: “Deixo-o entregue a monsieur Bergeret que, não tendo religião alguma, pelo menos não incorre nas misérias da religião fácil […] – não sou religioso – disse monsieur Bergeret -, mas sou um teólogo” Trecho 4 (Id, p.143, 2009b).

Em outro trecho, defende a si próprio:

– Eis ali meu melhor aluno – disse monsieur Bergeret

– Parece um firme rapagão – disse o senhor Compagnon, que admirava a força física – por que diabo estaria a estudar latim?

Ao que monsieur Bergeret, tocado, perguntou ao professor de matemática se ele achava que o estudo das línguas clássicas devia ser exclusivamente reservado aos doentes, fracos, raquíticos ou aleijados. Trecho 5 (FRANCE, pag. 45, 2009b)

Já vimos que nossa formação intelectual afeta nossa vida em sociedade, mas de que maneira os estudos podem nos modificar enquanto indivíduos? Tomando o trecho 5 poderíamos supor que até mesmo traços físicos são alterados, resultando em uma criatura hibrida, monstruosa, mas não, esta suposição é rejeitada por M. Bergeret, a deixemos aos biólogos, reflitamos apenas quantas vezes somos julgados brutos ou inteligentes devido a nossa constituição física ou quanto ao tamanho de nossos óculos.

Bergeret tem como atividade extracurricular a confecção de um dicionário de termos náuticos baseado na obra de Virgílio. Esse virgilius-nauticus “lhe fora encomendado por uma casa editora muito antiga, que seguia os velhos usos” (Id.Ibid, p.87). Tudo em seu ser remete ao passado. Em um certo momento chega a questionar a verdadeira utilidade de seu trabalho:

Este virgilius-nauticus, pelo qual me julgo e me condeno, será verdadeiramente obra minha, produto do meu espírito? Não! É uma tarefa imposta à minha miséria por um livreiro ganancioso, associado a professores artifíciosos, que, a pretexto de salvar a cultura francesa do jugo alemão, restauram o estílo frívolo de antigamente e me impõem passatempos filológicos à moda de 1820. Trecho 6.  (Id. Ibid, pag.45)

Quando em face de alguma novidade, Bergeret mostra-se desconfiado:

O senhor Roux, meu aluno, é a esperança da métrica latina. Mas, por um estranho contraste, este jovem humanista, que mede tão rigorosamente a versificação de Horácio e de Catulo, compõe ele próprio em francês versos que não metrifica com exatidão, e dos quais não me é dado, confesso, captar o ritmo indeterminado. Em uma palavra, o senhor Roux faz versos livres. Trecho 7.  (Id. Ibid, pag.45)

Este é um ponto de contato entre autor e personagem. Anatole declarou sobre os poemas simbolistas, em 1988, de que não compreendia absolutamente nada. (SUFFEL, 1957) Ele admirava escritores como Stendhal, La Fontaine e Balzac, que em sua Comédia Humana utilizou uma estrutura bastante similar à retomada por France, dita Estudo dos Modos / Cenas da vida na província.

Após a leitura do poema do senhor Roux, seu aluno, Bergeret diz timidamente: “quem sabe não será uma obra prima”, “temendo profanar a beleza incompreendida” (FRANCE, p.48, 2009b).

“Cet admirateur des classiques considérait qu’il atravesait une époque de décadence ET vouait à l’oubli tous lês écrivans de son temps, sans faire exception de son propre cas”

(SUFFEL, 1957. p. 125).

A principal mudança que sofremos ao receber formação intelectual, portanto, não é social mas individual, não no caráter físico (até que surja uma teoria biológica), mas no subjetivo, pois deformamos a realidade de acordo com a lente que usamos frente ao nossos olhos.

No livro temos um exemplo máximo desta alienação interior, com o qual fecharei o trabalho:

Fazia já algum tempo que o rabisco fora traçado […] mas era a primeira vez que monsieur Bergeret o notava […]  “Um Grafite, […] os moleques a caminho da escola proclamam-no nas paredes, eu sou o paspalho da cidade.” Aquela mulher me engana […] saiu a caminhar sob o temporal, pensando nos grafites traçados outrora por mãos ignorantes nos muros de Pompéia e agora decifrados, coligidos e ilustrados pelos filólogos. Pensou no grafite do palatino, naqueles riscos apressados e canhestros com que um soldado ocioso arranhou o muro do corpo de guarda. “lá se vão 18 séculos desde que aquele soldado romano fez a caricatura de seu camarada Alexandros, adorando um deus com cabeça de burro, crucificado. Nenhum monumento da Antiguidade foi mais curiosamente estudado que aquele grafite do palatino. Ele é reproduzido em grande números de compêndios. Agora eu, como Alexandros, tenho meu grafite. Se um cataclismo vier soterrar amanhã esta cidade torpe e triste, preservando-a para a ciência do século XXX, e se nesse porvir distante for descoberto o meu grafite, que dirão os sábios? Compreenderam eles o grosseiro simbolismo? Saberão quiçá soletrar meu nome escrito nos caracteres de um alfabeto perdido? Trecho 8. (FRANCE, p. 68-69, 2009b).

REFERÊNCIAS
FRANCE, Anatole. À Sombra do Olmo. Rio de Janeiro: BestBolso, 2009a.
FRANCE, Anatole. O manequim de Vime. Rio de Janeiro: BestBolso, 2009b.
SUFFEL, Jacques. Anatole France: par lui-même “ecrivans de toujours” aux éditions Du seuil, 1957
GORMAN, Herbert S. Anatole France, Nobel Prize Winner. In: New York Times, nov.20, 1921.

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