Para que servem as teorias?

dezembro 27, 2010 § 4 Comentários

Alain Robbe-Grillet (1955 e 1963)

Tradução: Leonardo S. Bandeira

Título original: A quoi servent les théories @ Pour un Nouveau Roman, les éditions de minuit, Paris.

Não sou um teórico do Romance. Tenho somente, como sem dúvida todos os escritores, tanto no passado quanto no presente, sido levado a fazer quaisquer reflexões críticas sobre os livros que escrevi, sobre aqueles que li, e ainda sobre aqueles que pretendo escrever. Na maior parte das vezes, estas reflexões foram motivadas por algumas das reações – que eu tenha achado interessantes ou estúpidas – levantadas na imprensa por meus próprios livros.

Meus Romances não foram recebidos, na ocasião de sua aparição, com um calor unânime; Desde o quasi-silêncio reprovador no qual caiu o primeiro (Les Gomes) a repulsa violenta que a grande mídia impôs ao segundo (Le Voyeur), não mudou muita coisa; salvo pela tiragem, que cresceu sensivelmente. Devo reconhecer, houve alguns elogios, aqui e acolá, mas que me confundiam ainda mais. O que mais me desconsertava, tanto nas críticas quanto nos elogios, era encontrar quase sempre uma referência implícita – ou mesmo explícita – aos grandes Romances do passado, sempre postos como modelo sobre o qual o jovem escritor deve manter os olhos fixos.

Nas revistas especializadas, eu normalmente encontrava críticas mais sérias. Mas eu não me satisfazia em ser reconhecido, apreciado, estudado pelos únicos que me encorajaram desde o começo; eu estava convencido a escrever para o “grande público”, me doía ser considerado um autor difícil. Minhas inquietações, minhas impaciências, eram talvez tão fortes que eu me esquecia de tudo que aprendi, em minha formação, sobre os meios literários e seus costumes. Eu publicava então, em um jornal político-literário de grande tiragem (L’express), uma série de artigos curtos onde eu expunha algumas idéias que me pareciam obvias: dizendo, por exemplo, que as formas literárias devem evoluir para continuar vivas, que os personagens de Kafka têm muito pouco em comum com os de Balzac, que o realismo-socialismo ou o engajamento de Sartre são dificilmente conciliáveis com o estudo problemático da literatura, como com qualquer outra arte.

O resultado destes artigos não foi o que eu esperava. Eles causaram discussões, mas eles são julgados, quasi-unanimemente, simplistas ou fúteis. Levado sempre pelo desejo de convencer, retomei e desenvolvi os principais argumentos em questão em um ensaio mais longo que apareceu na Nouvelle Revue Française. O resultado não foi nada melhor; este escrito – alcunhado de manifesto – me transformou em outro sagrado teórico de uma nova escola literária, da qual evidentemente não se podia esperar nada de bom, na qual se apressaram em classificar, meio que ao acaso, todos os escritores que não sabiam onde mais colocar.

Escola dos olhares, Romance Objetivo, Escola da Minuit, os nomes variavam; quanto às intenções das quais me acusavam, eram todas verdadeiramente malucas; caça ao homem mundano, imposição do meu estilo aos outros escritores, destruir toda ordem na composição dos livros, etc.

Eu tentei, em novos artigos, esclarecer as coisas, explicar melhor as questões que foram negligenciadas pelos críticos, ou as questões mais distorcidas por eles. Desta vez me acusaram de contradição, de me render… Desta maneira, impulsionado sempre por minhas buscas pessoais e por meus detratores, continuei de maneira irregular a publicar todos os anos minhas reflexões sobre a literatura. É este conjunto que se encontra hoje neste volume¹.

————–

Estes textos não constituem uma teoria do romance; tenta-se apenas desanuviar algumas linhas de evolução que me parecem importantes na literatura contemporânea. Se eu adoto voluntariamente, em várias páginas, o termo Nouveau Roman, não é para designar uma escola, nem mesmo um grupo definido de escritores que trabalham sob as mesmas idéias; faço apenas uma denominação cômoda para englobar todos aqueles que procuram novas formas romanescas, capazes de exprimir (ou de criar) novas relações entre o homem e o mundo, todos aqueles que estão dispostos a inventar o romance, ou seja, inventar o homem. Estes escritores sabem que a repetição sistemática das formas do passado não é apenas absurda e ingênua, também pode se tornar nociva: fechando-nos os olhos quanto a nossa situação real no mundo presente. Ela nos impede portanto de construir o mundo e o homem de amanhã.

Elogiar um jovem escritor de hoje porque ele escreve à maneira de Stendhal representa uma dupla desonestidade. De uma parte, esta proeza não possui nada de admirável, como veremos mais tarde; da outra parte trata-se de algo completamente impossível: para escrever como Stendhal seria necessário antes escrever em 1830. Um escritor capaz de realizar tal pastiche, tão habilmente que produzisse páginas que Stendhal assinaria em sua época, não tem de nenhuma maneira algum valor hoje em dia, se comparado ao que teria se tivesse redigido as mesmas páginas durante o reinado de Charles X.² É como o paradoxo desenvolvido sobre esse assunto por J.L. Borges em seu livro Ficções: um escritor do sec. XX que copiava palavra por palavra o Don Quixote e acabava escrevendo um livro totalmente diferente daquele de Cervantes.

De igual maneira, ninguém cogita elogiar um músico por ter composto, hoje em dia, igual a Beethoven, um pintor imitando Delacroix, ou um arquiteto por ter criado uma catedral gótica. Muitos romancistas, felizmente, sabem que o mesmo vale para a literatura, que ela é totalmente viva, e desde que existe o Romance sempre foi nouveau. Como poderia a escrita do Romance permanecer imóvel, coagulada, enquanto tudo evoluía em sua volta – muito rapidamente até –  ao longo destes últimos 150 anos? Flaubert escrevia o Nouveau Roman de 1860, Proust o Nouveau Roman de 1910.  O escritor deve aceitar com orgulho seu próprio tempo, consciente de que não existem obras-primas na eternidade, mas apenas obras na história, e elas não sobrevivem fora da medida que deixam atrás delas o passado, e anunciam o futuro.

Entretanto, aí está uma coisa que os críticos não suportam, isto de o artista explicar-se. Dei-me conta disso quando, após ter publicado estas idéias e algumas outras, lancei meu terceiro romance (La Jalousie). Não apenas o livro foi mal-recebido e tratado como um atentado absurdo contra as belas-letras – mas tentaram mostrar como era natural que ele fosse assim detestável, pois ali se via o produto da premeditação: o seu autor – que escândalo! – possuía opiniões sobre seu próprio trabalho.

Vemos aqui que os mitos do século XIX permanecem fortes: o grande escritor, o gênio, é um tipo de monstro inconsciente, irresponsável e perigoso, um canal ligeiramente imbecil, de onde partem mensagens que apenas o leitor pode decifrar. Tudo aquilo que pode bloquear o raciocínio do autor é mais ou menos admitido como favorável ao surgimento da obra. O alcoolismo, a depressão, as drogas, as paixões místicas, a loucura, têm encoberto bastante as biografias romanceadas dos artistas, a um ponto onde parece natural identificar aí um requisito essencial para sua triste condição de artista, de ver em todo caso uma antinomia entre criação e consciência.

Muito distante de serem resultado de um estudo honesto, esta premeditação contraria uma certa metafísica. Estas páginas nas quais o escritor se dedicou sem haver consciência do que fazia, estas maravilhas não corrigidas, estas palavras perdidas, revelam a existência de alguma força superior que lhe as ditou. O escritor, mais do que um criador em sentido próprio, não seria então mais que um simples mediador entre o cotidiano dos mortais e uma força oculta, além da compreensão humana, um espírito eterno, um Deus…

Na realidade, é preciso ler os diários de Kafka, por exemplo, ou os de Flaubert, para se dar conta da importância dada, mesmo nas grandes obras do passado, à consciência criadora, ao projeto, ao rigor. O trabalho paciente, a construção metódica, à arquitetura longamente pensada de casa frase como conjunto do livro, isto sempre teve sua importância. Depois de Les Faux-Monnayeurs, depois de Joyce, depois de La Nausée³, parece que nos encaminhamos cada vez mais para uma época onde os problemas da escrita serão abordados lucidamente pelo escritor, onde as inquietações críticas, longe de esterilizar a criação, poderão ao contrário lhe servir de motor.

Não é o caso, como vimos, de estabelecer uma teoria, uma engrenagem para fazer correr os livros futuros. Cada escritor, cada livro, deve criar sua própria forma. Nenhuma receita pode substituir a reflexão contínua. O livro cria para si mesmo as suas regras. Ainda que o movimento da escrita deva freqüentemente os colocar em perigo, em fracassar, ou talvez estourar. Longe de respeitar as leis imutáveis, cada novo livro tende a construir suas leis de funcionamento ao mesmo tempo em que produz sua destruição. Uma vez a obra acabada, a reflexão crítica do escritor lhe servirá para se distanciar dela, alimentando novas pesquisas, um novo começo.

Portanto não é interessante procurar colocar em contradição as visões teóricas e as obras. A única relação que pode existir entre elas é justamente de caráter dialético: um jogo duplo de acordos e oposições. Portanto não é de surpreender, não mais, que se constate evoluções de um ensaio a outro, incluindo este que estamos lendo aqui. Não se trata, esteja claro, de respostas aos absurdos ditos a torto por leitores um tanto desatentos – ou sonolentos –, mas retomadas de pensamento em um novo contexto, novos exames, um outro lado da mesma idéia, ou mesmo um complemento, contanto que não se trate pura e simplesmente de uma defesa contra um erro de interpretação.

Em outra análise, é evidente que as idéias mudam rapidamente, em comparação aos livros, e que nada pode substituir estes. Um romance que não é nada além de exemplos de uma regra gramatical – mesmo que acompanhada de suas exceções – seria naturalmente inútil: o enunciado da regra seria suficiente.

Assim, depois de indispor os críticos lhes comunicando sua literatura e seu projeto, o escritor se sente reduzido quando estes mesmos críticos lhe pedem: “explique-nos porque você escreveu este livro, o que ele significa, qual a sua intenção ao escrever, com que intenção usou esta palavra / construiu a frase desta maneira?”

Diante de tais perguntas, poderia dizer-se que sua inteligência não possui qualquer utilidade. A sua intenção era escrever o próprio livro. O que não significa que esteja sempre satisfeito; mas a obra continua, em todo caso, a melhor e única expressão possível de seu projeto.

Se o autor tivesse a capacidade de formular uma definição mais simples, ou de resumir aquelas duzentas ou trezentas páginas em qualquer frase com significado claro, capaz de explicar seu funcionamento palavra a palavra, justificar a obra brevemente, não haveria necessidade de escrever o livro. Pois a função da arte não é jamais ilustrar uma verdade – ou mesmo uma interrogação – já conhecida, mas lançar ao mundo interrogações (e talvez também respostas) que nunca foram feitas antes.

Toda consciência crítica de um escritor lhe é útil apenas no âmbito da escolha, não da sua explicação. Ele sente a necessidade de utilizar tal forma, dispensar tal adjetivo, de construir o parágrafo de tal maneira. Ele usa de todo cuidado para escolher a palavra exata e seu colocamento. Porém, desta necessidade ele não pode nos dar nenhuma prova. Ele suplica para que acreditemos, que confiemos nele. Portanto quando perguntamos por que ele escreveu seu livro, ele só tem uma resposta: “foi para tentar saber por que tive vontade de fazê-lo”

Quanto a dizer aonde vai o Romance, ninguém pode afirmar com certeza. A princípio é provável que diferentes caminhos continuem a existir paralelamente. Entretanto parece que alguns já aparecem  mais definidos que outros. De Flaubert a Kafka, se impõe uma ligação espiritual que clama pelo futuro. Esta paixão por descrever, que os dois dispunham, é a mesma que encontramos no Nouveau Roman de hoje. Ao lado do naturalismo de um e do onirismo metafísico do outro, se desenham os primeiros elementos de uma escrita realista dum gênero desconhecido, que neste momento está prestes a nascer. Este novo realismo no qual este grupo tenta dar alguns contornos.

———-

¹ este artigo abre uma coletânea de textos publicada sob o título de Pour Un Nouveau Roman.

² Charles X, rei da França de 1824 a 1830

³ A Náusea, por J.-P. Sartre


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§ 4 Respostas para Para que servem as teorias?

  • […] Posted by Abilio Pacheco em 21 21UTC janeiro 21UTC 2011 Alain Robbe-Grillet (1955 e 1963) Tradução: Leonardo S. Bandeira Título original: A quoi servent les théories @ Pour un Nouveau Roman, les éditions de minuit, Paris. Não sou um teórico do Romance. Tenho somente, como sem dúvida todos os escritores, tanto no passado quanto no presente, sido levado a fazer quaisquer reflexões críticas sobre os livros que escrevi, sobre aqueles que li, e ainda sobre aqueles que pretendo escrever. Na maior parte das … Read More […]

  • leomaria disse:

    NÃO ,NÃO IREI DESCONECTAR.PROVAVELMENTE APERTEI O BOTÃO ERRADO.PORÉM, INICIANDO AQUI O MEU COMENTÁRIO,ADEQUA-SE EXATAMENTE AO MEU CASO ,SE FOSSE PARA EXPLIOCAR PORQUE ESCREVI DESTA FORMA.NÃO FALO DOS OUTROS ESCRITORES ,MAIS DE MIM MESMA, NO MOMENTO QUE ESTOU ESCREVENDO ALGO.
    ” Toda consciência crítica de um escritor lhe é útil apenas no âmbito da escolha, não da sua explicação. Ele sente a necessidade de utilizar tal forma, dispensar tal adjetivo, de construir o parágrafo de tal maneira. Ele usa de todo cuidado para escolher a palavra exata e seu colocamento. Porém, desta necessidade ele não pode nos dar nenhuma prova. Ele suplica para que acreditemos, que confiemos nele. Portanto quando perguntamos por que ele escreveu seu livro, ele só tem uma resposta: “foi para tentar saber por que tive vontade de fazê-lo” “.
    TEORICAMENTE NÃO CONSIGO AVALIAR BEM COMO PODERIA SER A MINHA PRÓXIMA OBRA,MAIS, SABERIA EXPLICAR O QUE SENTI AO FAZÊ-LA E QUE NO MOMENTO DE SUA CRIAÇÃO A MINHA VISÃO VOLTAVA-SE PARA ALGO, O QUE ME LEVOU À NECESSIDADE DE FORMAR A SUA REALIDADE.
    GOSTEI MUITO DESTA TRADUÇÃO QUE SÓ ME FAZ ACRESCENTAR E ACREDITAR EM MEU TEMPO E EM MIM.UM ABRAÇO ABÍLIO.LEOMÁRIA

  • Maria Olindina Formiga disse:

    Entendo, que as Teorias servem para comprovar de forma conclusiva um estudo, uma pesquisa, um experimento.Se é apoiada no real ,se é mais cientifica do que as outras, etc.; A emoção por exemplo: William James e um psicólogo Karl Lange, desenvolveram, independemente, uma interpretação, mais tarde chamada a teoria de James – Lange.
    Modificações corporais causam emoção, dizia. Se não há modificações, não há emoções . Julgamos as emoções dos outros, em grande parte, por suas expressões faciais e seus gestos. Bem, parece fácil reconhecer a ira no rosto de uma pessoa, ou o espanto; não obstante, os experimentos demonstram que muitas vezes estamos errados.Ainda: vários estudos foram feitos se são os olhos ou a boca que expressam mais emoção.

  • Eduardo disse:

    Teoria só serve pra desconsertar o ser humano. Salve a teoria.

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