Le Comte de Monte Cristo na cultura oriental

dezembro 22, 2010 § Deixe um comentário

 

Surgida no meio século XVIII através da pena de Alexandre Dumas, a novela O Conde De Monte Cristo contava não apenas uma história – criava um mito que viria a ser repetido, tal como um Robson Crusoé, em diversas outras literaturas.

O longo folhetim, com quase uma centena de personagens, girava em torno da vingança de um homem preso injustamente como consequência de uma conspiração que envolvia os três poderes; Clero, Exército e Direito.

A alegoria servia para denunciar a corrupção presente na nobreza francesa e simbolizava o ideal republicano através do personagem Edmond Dantes, mas após quase dois séculos de sua aparição, a obra parece ainda dialogar com as mais diferentes culturas; mesmo aquelas que não possuam nenhuma memória sobre o embate entre monarquia e república e a sucessão de governos do século XVIII francês.

Notáveis são os casos das adaptações feitas no Japão e Coreia, respectivamente a série televisiva Gankutsuou (2004) e o filme Oldboy (2003).

A adaptação japonesa, em formato Anime, transporta os acontecimentos e personagens de Dumas para um universo fantástico, retrô-futurístico, representado por imagens texturizadas que remetem a obra do pintor austríaco Gustav Klimt.

A adaptação Coreana não se utiliza dos personagens de Dumas, apropriando-se apenas do Mito em um cenário urbano contemporâneo da própria coreia.

Através deste dialogo entre culturas podemos observar como os mitos podem atravessar qualquer diferença social e dialogar com aquilo que pode ser chamado de natureza humana. Também nos instiga a procurar nos integrar a um cenário mundial verdadeiramente globalizado, além do limite presente na maior parte dos estudos científicos: o Ocidente.

O presente estudo se dividirá em 4 capítulos, o primeiro irá retomar o mito original, o segundo abordará a adaptação japonesa, o terceiro a coreana, o capitulo final ficará reservado às considerações finais. No momento, tratam-se de apenas anotações gerais enquanto não se desenvolve uma pesquisa mais profunda.

 

  1. Le comte de monte Cristo

Publicado em folhetim entre 1844 e 1846, a obra faz um retrato histórico do período da restauração francesa no século XIX, onde as tensões se equilibravam entre os Bonapartistas Republicanos e os Monarquistas. A trama gira em torno não dos reis, mas de cidadões comuns como Edmond Dantés, Mondego, Villefort, etc

Após a queda de Napoleão e a restauração da Realeza, Dantés foi falsamente acusado de conspirar para o retorno do imperador. Apesar de inocente, Dantés serve de boa isca, pois  representa um homem do povo, trabalhador, que acredita na igualdade entre os homens; Algo natural para um personagem que cresceu durante o regime Napoleônico.

A acusação partiu, no entanto, de um procurador que sabia do envolvimento de seu próprio pai na conspiração, e temendo manchar seu nome diante do Rei nome usou Dantés como bode-expiratório.

O romance tem inicio neste período de indefinição política (1815) e faz uma crítica a alta sociedade corrompida que vira-casaca de acordo com quem se coloca no poder. Algo muito frequente no séc. XIX, testemunho de muitos diferentes regimes políticos.

O livro é dividido em três partes:

  1. Prisão e fuga de Edmond Dantés
  2. Vinda a paris como Conde de Monte-Cristo
  3. Vingança

Durante a prisão, Dantés é educado por um padre português e tenta solucionar o mistério de seu enclausuramento. Uma vez livre, infiltra-se na vida de seus malfeitores; Villefort – procurador justica, Fernando Mondego/Morcef – um antigo amigo e agora herói militar, Danglars – banqueiro., e ainda Caderousse, um corrupto menor.

Dantés executa então sua vingança como um gênio, traçando planos complexos e envolvendo não só seus rivais, mas as suas famílias e a sociedade parisiense.

 

  1. Gankutsuou

Gankutsuou, produzido pelo estudio de animação GONZO, até o momento não foi licenciado para o Brasil. Sua localização foi produzida de maneira independente pelo grupo OMDA fan-subs. Dividido em 24 episódios, a série possui um leque maior de personagens se comparado com outras adaptações. Uma das principais diferenças é o foco nos personagens mais jovens da história, com Albert Morcef como protagonista, Franz e Maximillian como um surpreendente coadjuvante.

Ao transferir o foco narrativo para o personagem Albert Morcef, o passado do Conde se torna um mistério. Todo o primeiro tomo do livro é suprimido, iniciando-se a história com a chegada do Conde na vida de Albert, durante as festas de carnaval. O desenvolvimento da trama circunda o embate entre a admiração de Albert ao Conde e a descoberta de seus objetivos de vingança.

O grande choque que a adaptação proporciona aos leitores de Dumas está no visual gótico-futuristico do Anime. Além do belíssimo uso de texturas, o desenho dos personagens pode até mesmo chocar; O Conde nos é mostrado em uma forma vampiresca, com dentes e orelhas pontudas, pele azul e longos cabelos. No entanto, sua aparência não se distancia muito da sugerida por Dumas:

« Le comte seul paraissait impassible. Il y avait même plus, une légère teinte rouge semblait vouloir percer la pâleur livide de ses joues.  Son nez se dilatait comme celui d’un animal féroce qui flaire le sang, et ses lèvres, légèrement écartées, laissaient voir ses dents blanches, petites et aiguës comme celles d’un chacal. Et cependant, malgré tout cela, son visage avait une expression de douceur souriante que Franz ne lui avait jamais vue ; ses yeux noirs surtout étaient admirables de mansuétude et de velouté. »

Page 121 tome II

Ainda no livro, o personagem Franz se espanta com a aparencia vampiresca do Conde:

« Franz s’était peu à peu habitué à cette pâleur du comte qui l’avait si fort frappé la première fois qu’il l’avait vu. »

Tome II

Outro personagem retratado de maneira singular é o criado Ali, um núbio mudo na obra de dumas – visto como ser estranho,  misterioso – é aqui retratado como um extraterrestre verde.

Em relação ao enredo, trata-se de uma adaptação bastante fiel, pois mesmo as mudanças estéticas possuem um referencial na obra original.

 

  1. Oldboy

Oldboy é o segundo filme da ‘trilogia da vingança’ produzida entre pelo diretor coreano Chan-wook Park. Tratam-se de três filmes independentes entre si, tendo como semelhança apenas o motif Vingança.

Em Oldboy recorreu-se à um mito ocidental, também sobre vingança, para compor o personagem; O Conde de Monte Cristo. Não se trata, porém, de uma adaptação da história de Dumas; o desfecho é radicalmente diferente do romance e o objeto a ser vingado não está ligado às instituições públicas (política, finanças, exército).

O mito se faz presente apenas na transformação do personagem Oh Daesu em O Monstro. Num paralelo com Dantés / Monte-cristo.

O personagem Oh Daesu é raptado no início do filme por razões desconhecidas, ponto de referenciação, e toda referenciação temática pode ser vista na primeira metade do filme, que mostra a instrução e fuga.

Os elementos que migram de uma historia para outra são:

  OLDBOY Monte-Cristo
Tempo de prisão 15 anos 15 anos
Motivo da prisão Desconhecido Bode-expiratório
Aprendizado Televisão Ancião
Fuga Túnel / soltura Túnel / soltura
Após Liberdade Par romântico / Investigação / Vingança Enriquecimento / Investigação / Vingança
Após vingança Perda de memória Solidão

O diretor declara explicitamente a influência da obra de Dumas em uma linha de diálogo aos 37:20 min.

 

  1. Considerações Finais

É interessante notar não apenas a presença de elementos culturais ocidentais no oriente, mas a maneira como tais elementos são incorporados ao local. Em ambos os casos mostrados, foi somado ao mito muito da cultura local, seja no microuniverso das animações japonesas, seja no contexto da sociedade coreana. Temos então exemplos de adaptações que adicionam novos elementos ao mito, enriquecendo-o.

Comparando-se com a adaptação produzida por Gerard Depardieu, na frança, temos a falsa impressão de que o cinema é incapaz de reproduzir o universo do livro, já que muito do original ficou de fora. Já na adaptação hollywoodiana de 2002, dirigida por Kevin Reynolds, a trama foi empobrecida através de um recurso que sensibilizava Dantés, a paternidade, tornando-o um personagem muito mais plano.

Nas adaptações orientais reconhecemos o mito fundamental da trama, em volta do qual todos os outros elementos se circundam, e no qual se adicionam novos elementos capazes de proclamar a nova obra como autônoma e original. Um resultado que pode nos servir de exemplo quando adaptarmos um mito oriental, amiúde vítima de caricaturas ou poluído por valores ocidentais, a exemplo da célebre tradução das Mil e Uma Noites feita por Antoine Galland e disseminada por todo ocidente. Longe de representar a cultura Árabe, a tradução é uma paródia do costumes orientais através de uma ótica cristã. Tais julgamentos de valores não ocorrem nas adaptações apresentadas aqui, mas um frutífero diálogo.

Um mito é capaz de atravessar o tempo e as diferentes culturas, sendo enriquecido e multiplicado com a cultura de todo lugar que passa. Desta maneira, o mito do Conde de Monte Cristo mostra-se presente não apenas na nossa sociedade contemporânea, mas também na sociedade oriental.

 

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