O Colosso de Marússia – Henry Miller

dezembro 7, 2010 § Deixe um comentário

 

O Colosso de Marússia

Fruto de sua viagem à Grécia, Henry Miller nos presenteia com o livro O Colosso de Marússia, seu primeiro que não seria ficção ou ensaios. A principio, senti falta daquele rebuscamento artístico de suas obras de ficção; tampouco o texto traz a linguagem científica de um ensaio – é um livro de viagem, mas que não descreve os lugares exceto pela sensação que eles causam; nisto, talvez, esteja o êxito do livro: ele transforma a Grécia em um lugar não terreno. A Grécia de Miller faz parte do campo das ideias, sendo assim, sentimo-nos lá, sem diferenciar uma praia das ruínas.

Como de costume, a maior riqueza do texto está nos diálogos; apesar de vermos algumas ideias do autor que já aparecem em outros de seus livros, ainda há novos conceitos que sustentam a obra; à exemplo de um que já adotei como meu também, o diálogo de uma pessoa só.

Esta ideia surge a partir da figura central do livro: Katsimbalis, grego que discursa poeticamente mas se nega a ser escritor. Nos diálogos de Miller apenas um fala, enquanto o outo escuta admirado. A riqueza do diálogo não exige perguntas, réplicas, ou mesmo sinais de concordância e entendimento;

vi que era um homem feito para o monólogo […] gosto muito mais do monólogo do que do diálogo, quando ele é bom. É como ver um homem escrever um livro expressamente para você: ele escreve, lê em voz alta […] e em seguida rasga tudo e joga os pedacinhos ao vento” (pag.33)

a esta qualidade de conversa Miller não economiza elogios e por causa dela nomeou o poeta de Colosso, daí o título. Um exagero que ele agradece poder cometer. Além disso, Miller elogia e comenta diversos outros autores, como seus favoritos Walt Whitman e Rimbaud.

É importante, apesar de não necessário, situar o livro no tempo. Lançado em 1941, narra experiencias passadas um/dois anos antes – na ebulição da 2º guerra. A surpresa está na calma e paz onde Henry se encontra, sem jamais se gastar em comentários sobre o conflito; em seu melhor momento, critica ferozmente o avanço da medicina em paralelo às guerras. (pag.84) Fazendo apologia da paz na qual ele verdadeiramente vive.

Em seu prefácio, a tradutora Cora Rónai critica a posição de Miller quanto à pobreza; durante o texto vemos que o autor afirma diversas vezes ser paupérrimo, mas ainda assim, Cora denuncia, aluga carros e dorme em bons hotéis, viaja de primeira classe e mostra desprezo pelo dinheiro. Parece estranho, realmente, mas criticar Miller por isto parece limitar o ângulo de visão. As informações biográficas do autor relatam diversos momentos desesperadores; o que marca a alma de um homem. Após ir para Paris, e sofrido ainda mais lá do que em sua terra natal, teve empregos razoáveis mas que abandonou em nome da liberdade. A filosofia de Miller é difícil de ser aceita; vive à margem da sociedade, despreza o trabalho, o dinheiro e aprecia apenas a boa comida e a arte. Em sua estada na Grécia, passou aproximadamente 1 ano sem trabalhar; seria rico? Antes de dar a resposta deve-se observar que diversas vezes ia ao banco receber ordens de pagamento enviado por amigos, e que o dólar valia muito na Grécia; o autor muitas vezes se surpreende com a taxa de câmbio. Outra postura controversa no comportamento de Miller é a negação do conforto da modernidade; diz preferir sempre viajar na segunda-classe, só não o fazendo quando o vagão está ocupado por animais. Em sua primeira viagem de avião Miller critica a velocidade (!!) da viagem por não possuir o deleite de uma longa viagem onde se conhecem pessoas – não observou a beleza que é estar no ar. Julgar até onde os avanços tecnológicos, e até onde gostaria de viver como pregou Rousseau exigirá uma leitura mais completa de sua obra; no momento sei que ele critica a maioria das novas tecnologias, mas nem por isso deixa de utilizá-las uma vez ou outra – o que não o torna incoerente! Pois outro ponto-chave de seu discurso é a inevitabilidade da autodestruição humana.

É interessante o livro por sua linguagem simples, de homem comum e não o Artista. Aqui ele se refere pela primeira vez à sua esposa June por seu nome verdadeiro ( uma única vez em todo livro ). A falta do rebuscamento artístico pode fazer o leitor habitual se perder o interesse, mas este é sempre revigorado pela vitalidade dos diálogos. Em entrevistas Miller sempre diz que seu melhor livro é o Colosso; por ser uma obra alegre. Não poderia discordar, e nos fará alegres internalizar em nós um pouco da Grécia de Miller, mesmo se jamais conhecermos as ruínas.

A separação na ultima passagem do livro é comovente; quando finalmente não se pode mais ignorar a guerra e é preciso voltar à América.

As pessoas costumam ficar espantadas quando falo dos efeitos produzidos em mim por essa visita à Grécia. Dizem que me invejam, e que gostariam de ir lá, um dia. Por que não? […] Qualquer um que diga que está morrendo de vontade de fazer alguma coisa que não está fazendo ou de estar em um lugar que não está, está mentindo para si mesmo..” (p.238)

(escrito em novembro 2006)

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