Alguns albums de 2017…

janeiro 20, 2018 § Deixe um comentário

Em Portugal, ouve-se muita música portuguesa na estação de rádio Antena 3. Aos sábados há um programa A3.30 com o ranking semanal de melhores musicas nativas, de onde eu conheci e passei a apreciar novos artistas, sempre nos primeiros lugares este ano estavam Luís Severo e Benjamim

Escola, Amor e Verdade, Cabeça de Vento, Boa Companhia… todas as músicas dentro dos 40 minutos deste release são para memorizar as letras e embalar o dia-a-dia urbano.

Metade das musicas cantadas em Inlês pelo Barnaby me deixaram um pouco pé atrás com este disco, depois do Benjamim gravar sozinho um dos meus favoritos no ano passado Auto-Rádio. Mas com Dança com os Tubarões e principalmente Terra Firme, o disco foi entrando na banda sonora das noites em que eu acalmava Aurora e a punha a dormir.

Para fechar a trinca de discos portugueses os Stone Dead arrancam com Blooze e imediatamente remetem aos Supergrass, mas no restante do album tem toda a sopa de influencia das bandas de rock-psicodélico. Apesar de ter ouvido muito o som dos Ganso (O que há por cá) e Cassete Pirata (pó no pé), acho que este é o LP que melhor preenche os dois lados da bolacha – ouvi no Bandcamp como todos os outros acima.

Este ano houve vários lançamentos de cantoras jazz, porém todos bastante medianos. Teve a Norah Jones que a Blue Note colocou o Lonnie Smith como acompanhamento sem grande efeito, a Diana Krall a cantar standards com uma voz amadurecida mas piano sempre medíocre, a Imelda May tentou uma guinada necessária de estilo mas ainda não se encontrou. A Carla Bruni lançou um álbum que poderia ser dos Nouvelle Vague e a Charlotte Gainsbourg não me convenceu. De todos estes gostei mesmo da Stacey Kent a cantar Photography. Os arranjos em todo o álbum são suaves e a Stacey passeia pela orquestra como um maestro.

E por falar français o melhor álbum da terra do croissant em 2017 foi o da novata Juliette Armanet, Petite Amie segue uma linha estética francesa clássica (até na capa) num disco pop com letras muito ricas e técnica vocal para desafiar qualquer aspirante à Karaokê, The Voice ou Idol. Há um pequeno sabor de Julien Doré aqui, e até trabalharam em um dueto. Mas o Julien fechou o ano com o seu pior trabalho até então, ao insistir na fórmula do album anterior (Love) o chamado “&” ficou abafado. Quem também lançou o pior trabalho da carreira foi o Mathieu Chedid com “lamomali” forçou o limite da amálgama frança-africa e apesar de bons momentos como Un âme, -M- ficou apagado em seu próprio álbum.

Da Belgica, tão bom quanto, senão melhor, veio a Lisza. Com produção e composições do Vincent Liben. O album La vie Sauvage passou totalmente despercebido até mesmo na sua terra local, o videoclipe acumulam pouquíssimos views – exemplo de que mesmo com música excelente, não se consegue nada sem o empurrão das gravadoras.

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Também da Bélgica, a dupla Lorenzo Gatto e Julien Libeer apareceu para mim no disco Diapason d’Or com a “Kreutzer  I. Adagio sostenuto – Presto” em uma interpretação tão energética e tão bem registrada que se tornou um dos meus albums favoritos do ano – e o meu álbum de música clássica favorito de sempre. É de se colocar no volume mais alto.

Flo Morrissey e Matthew E. White tem neste Gentlewoman Ruby Man um excelente disco de colaboração (muito melhor do que o mais aclamado Kurt Vile / Courtney Barnett) é um disco de covers com atmosfera etérea e repertório muito mais contemporâneo do que se vê neste tipo de álbum. Talvez este seja um bom momento para lembrar que o Beck demorou demorou e lançou este ano um disco fraquinho que ninguém gostou. De volta para a Flo, adorei a versão de Grease e de Heaven Can Wait (do Beck + Charlotte Gainsbourg).

Eu NUNCA gostei do Mac Demarco, tinha té algum preconceito com ele. Mas bastou ouvir Still Beating uma vez, e virou uma das minhas músicas favoritas do ano. Gosto tanto da letra, da clareza do som do violão / produção, do estado de espirito. Todo o álbum segue esse estilo e não há muitas surpresas, mas fico muito surpreso de ver que o disco não foi tão bem recebido e não apareceu alto nas outras listas de melhores do ano: enquanto quase todas revistas colocavam os loopings insuportáveis do LCD Soundsystem em destaque… vai entender

Agora estranho mesmo é eu ter de coçar a cabeça para tentar lembrar pelo menos um álbum de metal para colocar nessa lista. Tive que ir lá pro começo do ano pra falar do Mastodon que com Emperor of Sand tentou recuperar um pouco da moral dos fãs antigos perdida após o Once More Round the Sun. O resultado é um álbum que trás todos os elementos que a banda já explorou na sua carreira (em especial se considerar o EP bonus lançado pouco depois) de forma madura e concisa. É o meu disco de metal favorito de um ano com muitos e muitos releases medianos e de novas bandas que, para mim, só receberam atenção pois está tudo muito sem graça e sem inovação;

DESCOBERTA DO ANO:

Se teve um disco que “mudou minha vida” este ano, foi este LP do Duke Jordan de 1974. Esse ano, devido ao trabalho, ouvi muita musica instrumental e portanto muito Jazz. Na fila de sugestões do Youtube à partir do orgão do Lonnie Smith descobri a música Glad I Met Pat. O que dizer além disso? Posso dizer que além dessa, todas as faixas do disco são belíssimas e o melhor exemplo de Piano que eu posso sugerir pra qualquer pessoa interessada neste instrumento. Está no meu Top 10 álbuns de todos os tempos.

 

 

 

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Que tal? uma tradução mais natural.

maio 14, 2015 § Deixe um comentário

(este é um rascunho antigo que não concluí, vou liberar no blog como está já que não tenho mais pretensão nenhuma em desenvolver esse projeto ; os exemplos são comparativos de minha tradução com a publicada pela Rocco)

-Tentar, na medida do possível, eliminar a sensação de que estamos lendo um texto “traduzido”

-Devemos aceitar, sem ressalvas, de que muitas expressões em lingua estrangeira simplesmente não funcionam em português!

-Nomes proprios; adaptar ou manter a grafia original? Qual o grau de distanciamento que isto pode causar e até onde o que vale para nomes próprios valerá para nomes comuns?

Antônio sempre contou sua idade em anos de cachorro. Quando tinha sete anos, se sentia gasto como um homem de quarenta e nove; com onze, estava desiludido com um velho de setenta e sete anos. Hoje, com vinte cinco anos, desejando uma vida mais tranquila, Antonio tomou a decisão de cobrir seu cérebro com o manto da estupidez. Não poucas vezes ele constatou que “inteligência” não passa de uma palavra bonita para designar idiotices bem escritas, é um termo tão pevertido que muitas vezes é mais vantajoso ser um burro do que um intelectual sacramentado. A inteligência nos faz infelizes, solitarios, pobres, enquanto a aparência de inteligência oferece uma imortalidade de papel de jornal e a admiração daqueles que acreditam em tudo que lêem.

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Sempre parecera a Antoine contabilizar sua idade como os cães. Quando tinha sete anos, ele se sentia gasto com um homem de quarenta e nove anos; aos onze, tinha desilusões de um velho de setenta e sete anos. Hoje, aos vinte e cinco, na expectativa de uma vida mais tranquila, Antoine tomou a decisão de cobrir o cérebro com o manto da estupidez. Ele constatara muitas vezes que inteligência é a palavra que designa baboseiras bem construídas e lindamente pronunciadas, e que é tão traiçoeira que frequentemente é mais vantajoso ser uma besta que um intelectual consagrado. A inteligência torna a pessoa infeliz, solitária, pobre, enquanto o disfarce de inteligente oferece a imortalidade efêmera do jornal e a admiração dos que acreditam no que leem.

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Resenha Submissão Michel Houellebecq

fevereiro 25, 2015 § 2 Comentários

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Achei  Soumission o livro mais fraco de Michel Houellebecq, se não fosse o numero de vendas garantidas pro causa do nome do autor na capa, talvez nem recebesse uma tradução em português; mas por quê?

Antes de tudo, Submissão é bastante diferente das expectativas geradas pelas noticias/polemicas divulgadas na mídia francesa e americana. É gritante que tenham divulgado (inclusive na capa do Charlie Hebdo de 7 de janeiro) que o personagem do livro se converte ao islã, esqueceram de usar a tarja ==SPOILER ALERT== pois o ramadã só ocorre nas páginas finais do livro.

Imagino que o leitor brasileiro terá dificuldade imensa na leitura, tamanho o nível de referências políticas e sociais francesas presente no texto. Em alguns momentos é como ler um editorial do LeMonde – tudo parece muito local no texto e pouco universal, característica muito melhor equilibrada nas obras anteriores de Houellebecq. Me pergunto se encherão o texto com notas de rodapé, espero que não, mas o leitor fora da França se sentirá alienado.

Em alguns momentos o autor alcança o sublime, uma prosa que esperamos de um escritor do primeiro escalão, há por todo o livro uma ideia de fechamento de ciclos em nossas vidas. Seja a vida amorosa, profissional ou intelectual. O “depressionismo francês”, marca do autor, está presente e potencializado pela presença constante de Joris-karl Huysmans, símbolo da Decadense do fin-de-siécle. Soumisson é talvez a mais bela homenagem feita a Huysmans desde Oscar Wilde.

Não há uma critica ao Islã, há muito mais elogios, porém Houellebecq não nega o seu ponto de vista. Sem demagogia, o ponto de vista é de um homem heterossexual europeu bem formado, que possui ideias pré-concebidas como qualquer um de nós, não há tentativa de usar a voz de outra classe social, ou raça.

O principal problema de Soumission é seu protagonista. Ele é apenas um observador em um país que ultrapassa grandes mudanças. Não toma ação em nenhum nível coletivo. Além disso, o protagonista é menos informado do que a média, ou menos informado do que poderíamos esperar de alguém com seu perfil. Por este motivo o livro se torna didático, mastigadinho, explicadinho, enquanto François, sempre muito interessado, pergunta aos seus amigos e colegas de trabalho qual a situação política do país e da religião muçulmana.

Este excesso de didática torna o texto muito simples, muito distante do autor de Partículas Elementares onde os micro-ensaios traziam dezenas de ideias em apenas uma página e o ácido escorria a cada parágrafo.

Como em Admirável Mundo Novo, que também discutia um futuro distopico próximo, Soumission é um livro melhor na discussão que levanta do que em sua prosa  e estilo. Houellebecq previu uma França muito diferente em 2022, declarando em uma entrevista que achava que era uma data próxima demais para um partido muçulmano vencer as eleições na franca, mas justificou que este era seu lado “bestseller”, a escolha da data também torna possível a presença de toda a cena política francesa dos dias de hoje, lá temos Sarkozy, Hollande, Le Pen… senti falta de conhecer melhor Mohammed Ben Abbes. Mais páginas além das  exatas 300 (flammarion) seriam bem vindas, mas as únicas palavras que aparecem na página 300 fechando o livro são

 

Je n’aurais rien à regretter

 

ps* Se você nunca leu Michel Houellebecq e se interessa pelo autor, recomendo seguir a ordem cronológica de seus romances começando por Extensão do Domínio da Luta. Submissão será publicado no Brasil pela edições Alfaguara.

Entrevista citada:

http://www.theparisreview.org/blog/2015/01/02/scare-tactics-michel-houellebecq-on-his-new-book/

Meus hábitos de leitura

novembro 7, 2014 § Deixe um comentário

2014 está acabando e percebo que este foi o ano que menos li desde que comecei a anotar os títulos dos livros em meus cadernos todos os anos. Um total de 16 títulos, sendo que destes muitos poderiam não estar lá, pois foram lidos parcialmente, ou por motivo de trabalho.

Este ano li A Besta Humana de Émile Zola e O Cortiço de Aluízio de Azevedo e O Cheiro do Ralo (de uma sentada só! – muito parecido com o filme). Todo o resto foram releituras ou não ficção como Dias de Feira do Júlio Bernardo e Pavões Misteriosos do André Barcinski.

Quando eu trabalhava na livraria, lia de 3 a 5 livros por mês, o acesso e a oferta eram muito fáceis. Mas a frustração constante de não encontrar nada que me agradasse, que não julgasse um belo exercício em perda de tempo, me fez abandonar muitos de meus hábitos de leitura uma vez afastado deste ambiente.

Sempre achei livro muito caro, ou melhor, um valor além das minhas despesas. Mas livros são objetos extremamente acessíveis, é fácil encontrar títulos aleatórios de graça ou muito barato em qualquer lugar. Por isso eu sempre acabei lendo coisas que caiam em minha mão… e saindo com um gosto amargo na boca.

A maior parte dos livros que li foram em ônibus. Dificuldade de concentração em casa, sonolência aguda,  poucos intervalos entre uma coisa e outra… fones de ouvido (estes são o principal concorrente de minha leitura fora de casa, mas prefiro ler a ouvir musica em um ambiente com muito ruído). O ônibus acabou se tornando um ambiente privilegiado para leitura pois eu sempre sabia quanto tempo teria para terminar aquele capítulo, que não encontraria ninguém conhecido -só às vezes. Meu ritmo sempre foi um capítulo na ida, um capítulo na volta. Quando estes eram curtos ou compridos demais era preciso improvisar. Mais um capitulo na pausa do almoço. Isso acaba de mudar, pois vou de carro para o trabalho.

Terminada a leitura, escrevo no caderno e uso a seguinte notação:

++           muito bom

+             bom

–              ruim

—             muito ruim

Difícil anotar livros muito ruins, pois abandono a leitura rapidamente, sem pudor, e largo o livro em algum banco na rua, com pena da próxima pessoa que vai encarar aquilo. Felizmente apago da memória titulo e autor, e não saberia dizer aqui qual foi o ultimo livro que fiz isso, apenas a imagem da capa restou, por enquanto.

A Besta Humana e O Cortiço foram, para mim, livros absolutamente fantásticos, inacreditáveis. Tão bons que me dou por satisfeito serem estes as novas narrativas que conheci este ano. No resto do tempo, eu pegava um capítulo de Extensão do Domínio da Luta ou Partículas Elementares para saciar a coceira por uma boa literatura.

Este ano vi muito poucos filmes também, apenas 30. Séries de TV eu não consigo mais. Não dá mais pra mim, acho tudo um saco… assisti apenas alguns episódios de Louie e Game of Thrones “ao vivo” na HBO.

Com dois  ++ apenas os filmes RUSH, Frances Ha, Le vent se lève, T.S. Spivet, Super 8, Tim maia e Jersey Boys.

O que cresceu bastante foram os videogames e os CDs. Fim do ano passado vendi o XBOX e comprei um Nintendo 2DS e um Nintendo WiiU. Pra não pesar no orçamento, vendi muitas coisas no mercado livre e outros fóruns, vendi CDs raros que estavam com preço alto, coleções que não me interessavam mais. Assim, com um baixo investimento me tornei um consumidor de produtos originais, desenvolvendo uma relação muito mais afetiva com cada jogo. Com muito mais satisfação que eu tinha com o Xbox destravado e mil jogos à disposição. Melhor jogo este ano para mim foi The Wonderful 101.

Nos CD’s aumentei violentamente a quantidade de discos de minha coleção de MPB, o maior êxito foi a quadrilogia dos discos do Sérgio Sampaio. Em um golpe de sorte ganhei o Bloco na Rua o Cruel uma vez só e corri muito pra encontrar o Sinceramente que estava esgotado. Bandas novas que fiquei muito fã são o Fauve e o Cérebro Eletrônico. Quando vem algum adesivo, colo também no caderno.

Se li poucos livros, li muitos blogs, li muito sobre política, li muita manchete na internet. Este ano eleitoral, logo depois de um semestre marcado por protestos em todo os lugares, mudei alguns de meus hábitos para acordar e ligar a rádio para ouvir as noticias, sair do trabalho e sintonizar para ouvir os comentários. No terminal de ônibus pegar os jornais diários para saber o que era destaque. Foi uma frustração muito grande para mim, com tudo que tudo que vi, li, acompanhei, discuti… o resultado das eleições com a reeleição de Alckimin em SP, Pezão no Rio e Dilma Roussef no País. Nos principais pólos de protestos que moveram o país de junho 2013 à copa do mundo 2014 não mudou nada. Agora abro uma notícia, um blog, me pergunto se vale a pena acompanhar a política.

 

Conselhos a um amigo escritor.

junho 10, 2014 § Deixe um comentário

Fala amigo!

Puxa, queria muito poder sentar com você para discutir melhor o livro.
eu já havia lido um trecho um tempo atrás, então sei que é algo que está na sua cabeça a bastante tempo.

Em relação ao texto, eu não considero ele ainda “pronto”, acho que você precisa entrar mais na personagem, fazer uma oficina para conhecer esta mulher melhor.

Problema estrutural só encontrei um ; No terceiro parágrafo você muda para a primeira voz em discurso direto. Mas há um problema grave, o leitor não foi inserido na cena. Nós não sabemos com quem a mulher está falando ou em que local ela está. Isto é um problema pois o texto inicia na terceira pessoa. constroi uma cena, mas que fica incompleta pois não coloca o leitor no local do monólogo.

Sugiro você escrever um paragrafo entre o segundo e o terceiro para situar melhor a cena. imagine um cenário de teatro e mostre para o leitor.
Importante!
Com quem ela esta falando? uma colega de ponto? um cliente antes do programa? depois do programa? apenas um amigo em um bar?

Feito isso, eu sugiro que você programe uma manhã livre, reflita durante meia hora, se conseguir – mais, em quem é esta mulher e o que ela tem pra dizer. Não escreva nada, apenas pense nela. Em seguida leia o monólogo em voz alta sem interrupções. Após a leitura, ajuste o que você identificou como desvio na voz da personagem. O que faz sentido para ela, o que tem de interferencia do autor nela.

EU achei a voz dela muito ocilante. acho que isso tem que ser melhorado. Acima de tudo, EVITE o tom “didático” que surge muitas vezes. Evite frases afirmativas absolutas, verdades prontas. Elimine completamente as notas de rodapé. Isso não é trabalho para o autor. deixe para a edição comentada, que o editor coloque notas se julgar necessário. Eu não acho que são.

exemplo do tipo de frases super-afirmativas que estão fora de lugar ; “**********************************8”
“**************************************************”
“*******************************” contradita logo em seguida por “**************************************”

é importante não ser didático

A personagem precisa falar, faça um desenho dela e cole em sua frente na mesa de trabalho, olhe para ela sempre, a voz é dela.

Faça um resumo da personalidade dela e cole ao lado do desenho.

Desenhe uma linha, ponto A é o momento onde o livro começa, ponto B é o momento que o livro termina. Reflita por que você decidiu mostrar este momento na vida daquela mulher.

Alguma coisa precisa acontecer entre o ponto A e o ponto B, isto é muito importante. Isso responde o que acontece nesse livro e por que eu deveria lê-lo.

“Documentos em ordem, pode ir”, disse o soldado. (p.48)

dezembro 17, 2013 § Deixe um comentário

Interrompo a leitura do livro Vida e Época de Michael K para registrar alguns pensamentos sobre o livro. Pesquisei e vi que o mesmo está esgotado, apesar de vários outros livros do autor permanecerem disponíveis pela Cia. Das Letras. Com 50 páginas de história, é possível ver que J. M. Coetzee é um escritor acima da média (na verdade, com 15 páginas eu já estava fisgado). A forma que escreve é universal, fala-se da África do Sul, mas é possível sentir os ecos da falta de liberdade no dia-a-dia de minha própria vida. É sobre liberdade que o texto tem me feito pensar, e é terrível imaginar a situação social narrada no livro como algo real e tão próximo. Pra quem quiser ter uma ideia de como se respirava o ar na África do Sul de algumas décadas atrás, Coetzee nos transporta em um discurso sem demagogia, propaganda, ideologia. Chega a ser estranho um relato sobre este país sem as palavras Apartheid, Negro, Branco, Opressão…. elas não aparecem no discurso. Não há esta rotulação maniqueísta, simplista. É uma escrita que devemos ser gratos por existir, gratos por haver um registro tão humano.Image

Trecho traduzido de Martin Page (Inédito)

dezembro 11, 2013 § 1 comentário

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Aproximo-me do espelho para me barbear; meu rosto entra num quadro em que é refletido. Pego meu gel de barbear hipoalérgico-hidratante frescor menta, espalho um pouco nas bochechas e naquele pequeno espaço onde passa a veia jugular por meu pescoço. Minha gilete tem três lâminas, fico feliz, assim rasgo sem dificuldade a grossa linha roxa.

O sangue surge a principio lentamente. Ele hesita a tomar para si esta imensa abertura que lhe é oferecida no lugar do confinamento monótono e rotineiro da veia humana. Este novo mundo, com seus tesouros e seus mistérios que ele jamais possuiu em seu claustro, o assusta e o atrai. Ele não imaginava que era tão pequeno; o sangue é vaidoso, jamais lhe veio à ideia de que não poderia jamais preencher a veia na qual o diâmetro é o universo, pois ele jamais esteve senão em um pequeno corpo de homem.

Entretanto, por que o sangue possui a loucura dos grandes, ele se lança imprudentemente da ferida do meu pescoço sobre a louça branca suja de pelos. Isto é tudo que terá como paisagem. Em seguida, irá descer pelo sifão e se misturar com águas sujas, chegar aos esgotos para terminar em taças de coquetéis de ratos gigantes.

Perco consciência, minha cabeça estala no chão do banheiro.